Dom Abade Joaquim Zamith , OSB.

“Monaquismo” oferece-se informações sobre diferentes gêneros e formas de vida monástica que não somente estão hoje aparecendo nas mais diversas regiões da terra, mas que também revelam as suas origens em países como a India, China, Egito e Médio Oriente, até mesmo a 2.500 anos antes da nossa era cristã ... Leia mais

“Percurso da Vida Cristã e Monástica” .Isto se faz necessário para que se possa então discernir também quais as atitudes, as atividades que fazem parte do processo para aquisição de novas e indispensáveis experiências. ... Leia mais

“Mosteiros” apresenta endereços ou links para mosteiros onde podem ser encontrados textos ou atividades particularmente importantes para revelar aspectos autênticos da vida ou doutrina monástica. Também são apresentados fotos ou vídeos desses Mosteiros... ... Leia mais

Testemunhos dos Papas encontramos citações de documentos, alocuções, homilias e conferências em que a pessoa de Bento, a sua Regra ou mesmo o Monaquismo de forma geral, incluindo o testemunho pessoal de grande números de abades e monges são apresentados como importantes valores da tradição histórica, teológica e espiritual da vida religiosa ou da própria Igreja. ... Leia mais

Vocação e a Vida Monástica segundo as Cartas do Papa São Gregório Magno

 

 

 

 

 

A Vocação e a Vida

Monástica

 

segundo as Cartas do Papa

 

São Gregório Magno

 

 

D.Joaquim de Arruda Zamith,osb

 




Vocação e a Vida Monástica

segundo as Cartas do Papa São Gregório Magno[1]

Introdução

Quem estudar, ainda que rapidamente, a história da Europa nos séculos VIII, IX e X não pode deixar de constatar com admiração, a imensa obra civilizadora realizada pelos monges beneditinos. Não somente levaram a fé cristã a regiões longínquas, habitadas por povos bárbaros, mas estabeleceram mesmo os fundamentos de uma civilização e de uma cultura que seriam as bases da própria sociedade medieval.

 

Agostinho na Inglaterra, Bonifácio e Wilibrordo na Alemanha, Anscário na Escandinávia, foram alguns dos grandes missionários e apóstolos destes séculos, todos eles monges, unindo à vida de renúncia, de louvor de Deus e oração, os cuidados pastorais das novas igrejas por eles fundadas.

 

Toda esta intensa atividade missionária e pastoral realizada muitas vezes em situações totalmente diversas daquelas em que se desenvolveu o monaquismo primitivo, nos leva a procurar conhecer as causas deste novo e intenso movimento de vida monástica, bem como o espírito que o animou. Uma pergunta se apresenta inevitavelmente à nossa mente: terá o monaquismo beneditino permanecido fiel aos seus princípios fundamentais ? Terá conservado, através de tantas vicissitudes históricas, o verdadeiro espírito de São Bento ?

 

O problema é em si bastante complexo, quer pela diversidade de causas, quer pela própria dificuldade de se determinar o espírito de uma instituição como o monaquismo, que não está submetido a fórmulas rígidas e fixas.

 

Limitar-nos-emos, no presente trabalho, ao estudo de um dos fatores, sem dúvida, o mais importante neste desenvolvimento do monaquismo beneditino: a influência pessoal exercida pelas idéias e atividades do grande papa e monge São Gregório Magno. Ou melhor, procuraremos determinar, na medida do possível, qual a concepção da vida monástica deste grande papa, vista e analisada através somente de sua correspondência.

 

A sua ampla e profunda preocupação pelos mosteiros, não poderia deixar de ser conforme ao ideal da vida monástica que ele sempre procurou manter e que, possivelmente, ele mesmo abraçara.

É evidente que não se poderia ter a ousadia de apresentar a doutrina monástica de São Gregório unicamente através do estudo de sua correspondência, sem se consultar as demais obras. Mas, como até agora, o estudo das suas cartas não tem sido abordado com maior atenção, pensamos que esta leitura que pretendemos fazer,

poderá ser útil e oportuna, como parte a ser integrada entre a demais pesquisas.

 

Todos reconhecem a importância primordial do papa São Gregório Magno para o monaquismo beneditino, uma vez que ele, como afirma, conheceu pessoalmente os sucessores imediatos de São Bento, no governo do mosteiro de Monte Cassino e, além disto, conviveu com aqueles monges que haviam recebido diretamente do Santo Patriarca, os seus últimos ensinamentos e admoestações.

 

O único documento histórico que possuímos a respeito da vida do santo Legislador é o Livro II dos Diálogos, escrito pelo próprio papa, que ao lado da Regra dos Mosteiros, do próprio Bento, constituem a nossa única fonte de conhecimento de sua vida, personalidade e o seu espírito.

 

São Gregório Magno, antes da sua eleição para Bispo de Roma, fora monge e possivelmente abade do mosteiro por ele fundado em sua própria residência, no monte Célio. D.Justino MacCann, osb, um dos bons biógrafos de São Bento, assim se refere ao santo Pontífice:

"Ele está numa posição única em relação ao monaquismo beneditino.  Foi monge e depois abade, antes de ser papa e é praticamente certo que usou a Regra que, depois, tão calorosamente aprovou. Pode-se dizer, com justiça, que ele foi a maior e mais poderosa influência na propagação do monaquismo beneditino e pode mesmo ser considerado como o seu cofundador[2]".

Tocamos aqui em um dos pontos fundamentais da nossa questão, a saber, a vocação monástica de São Gregório. Que tenha sido monge, está fora de qualquer dúvida, mas até hoje persiste certa dúvida quanto à sua condição de discípulo de São Bento. Sabemos que tal afirmação, defendida forte e persistentemente pelos monges Maurinos, especialmente por Mabillon, foi impugnada por Baronio[3].

 

O santo doutor, quando nos fala da sua conversão monástica, nada nos diz a esse respeito. Nada se encontra também nos escritos em que menciona a sua vida de monge no mosteiro de santo André.

 

Alguns textos dos seus escritos nos revelam porém um conhecimento tão preciso e uma admiração tão grande pela “Regula Monachorum” que nos induzem a pensar ter ele não apenas conhecido a Regra, mas realmente vivido sob a sua inspiração e autoridade.

Assim, por exemplo, no II Livro dos Diálogos cap.36:

"Não quero que desconheças que o santo homem de Deus, entre tantos milagres pelos quais brilhou neste mundo, não foi menos preclaro pela sua palavra de doutrina. Escreveu a Regra dos Monges, notável por sua discrição e clara em sua linguagem. Se alguém desejar conhecer mais profundamente a sua vida e seus costumes, poderá encontrar no próprio ensinamento da regra, todas as ações do seu magistério, porque o santo homem de modo algum poderia ensinar de outro modo que segundo ele mesmo viveu”

Em alguns textos de suas Cartas Gregório parece citar quase literalmente a Regra beneditina, embora sem mencioná-la explicitamente:

 

Ao abade de Lerins (XI, 9) são dados alguns conselhos relativos ao modo de corrigir:

"In qua videlicet correctione hunc esse ordinem noveris observandum, ut personas diligas et vitia persequaris, ne si aliter agere fortasse volueris, transeat in crudelitatem correctio, et perdas quos emendare desideras. Sic enim vulnus debes abscindere, ut non possis ulcerare quod sanum est; ne si plus quam res exigit ferrum impresseris, noceas cui prodesse festinas. Ipsa enim in te dulcedo cauta sit, non remissa; correctio vero diligens sit, non severa. Sed sic alterum condiatur ab altero, ut et boni habeant amando quod caveant, et pravi metuendo quod diligant"

“Em cuja correção esta é a ordem que deverás observar: que ames as pessoas e persigas os vícios, para que agindo de outro modo não aconteça que a correção se torne crueldade e venhas a perder aqueles que desejavas emendar. Assim, deves retirar a ferida de modo que não venhas a ferir quem está são; não aconteça que pressionando o ferro, em demasia, prejudiques a quem desejavas ajudar. Que em ti a mansidão seja cautelosa, mas não débil; a correção seja diligente, mas não muito severa. Assim, seja  um condimentado pelo outro, de modo que os bons, amando, saibam como precaver-se, e os maus, temendo, aprendam a amar” Pode-se comparar com RB 64,11-14.19:

 

 

Oderit vitia, diligat fratres. In ipsa autem correptione prudenter agat et ne quid nimis.. Oderit vitia, diligat frateres... ne, dum nimis eradere cupit aeruginem, frangatur vas; suamque fragilitatem semper suspectus sit... memineritque calamum quassatum non conterendum. In quibus non dicimus, ut permittat mutriri vita; sed prudenter et cum caritate ea amputet... sic omnis temperet, ut sit et fortes quod cupiant et infirmi non refugiant".

“Odeie os vícios, ame os irmãos. Na própria correção proceda prudentemente e não com demasia, para que, enquanto quer raspar demais a ferrugem, não se quebre o vaso; não deve esmagar o caniço já rachado. Com isso não dizemos que permita que os vícios sejam nutridos, mas que os ampute prudentemente e com caridade. Equilibre tudo de tal modo, que haja o que os fortes desejam e que os fracos não fujam”.

Em outra carta Gregório lamenta  a atitude de um monge que ousou altercar com o seu companheiro de viagem, exigindo parte de uma eulógia que aquele recebera (XI, 48; X ep 24):

"Quod ex quanta amaritudine cordis descenderit, tua potuerit dilectio scire, si Regulam Monachorum nosse voluisset".

“Quanta amargura do coração isto manifesta, vossa caridade poderia perceber, se quisesse conhecer a Regra dos MongesRefere-se Gregório a RB 54 "se deve o monge receber cartas ou outras coisas".

 

A originalidade e importância das Epístolas.

 

Embora o Papa São Gregório tenha sido um grande mestre da ciência espiritual, explanando, através dos seus comentários a diversos livros da Sagrada Escritura, os fundamentos desta vida, bem como o processo do seu desenvolvimento, não encontramos nenhum tratado sobre a doutrina da vida monástica. Nas suas Epístolas porém, desde o início do seu pontificado, Gregório revela o seu grande amor à vida monástica bem como as suas idéias sobre ela, através de considerações sobre sua própria experiência pessoal, ou procurando ajudar, exortar ou corrigir, de maneira bem concreta, o que julgava ser oportuno para o bem das comunidades monásticas.

 

Muitas de suas epístolas são escritas em belo e cuidado estilo literário, e as suas idéias e considerações são apresentadas não somente com uma grande clareza, mas com a lógica de um tratado teológico ou de um documento jurídico[4].

 

Na coleção de suas epístolas, são justamente as primeiras, escritas logo após a sua ascensão à cátedra de São Pedro, onde melhor encontramos os mais belos e cuidados textos. Assim, por exemplo, na epístola I,4 Gregório responde a  João, o Patricarca de Constantinopla (de 582 a 595), lamentando-se por não ter recebido sua ajuda, para poder evitar o peso do episcopado. Gregório o conheceu quando vivia também, na mesma cidade, como apocrisiário pontifício.

 

“Gregório a João de Constantinopla.

Se a virtude da caridade consiste no amor ao próximo, e se somos  mandados amar o próximo, como a nós mesmos, por que a vossa beatitude não me ama como a vós mesmo? Sei, com efeito, com quanto ardor e quanta determinação quisestes fugir do peso do episcopado e no entanto, não vos opusestes a que este mesmo peso recaísse sobre mim.

É pois evidente que não me amastes como a vós mesmo, uma vez que desejastes que eu aceitasse aquelas responsabilidades que não desejastes que vos fossem impostas. Mas, porque eu, indigno e doente aceitei o governo desta nave velha e terrivelmente fendida - pois, de fato,  por toda a parte entram as vagas e as táboas apodrecidas, sacudidas pela violenta e cotidiana tempestade, já fazem pressentir o naufrágio - eu vos peço em nome do Deus onipotente, que neste perigo, extendas para mim as mãos das vossas orações, uma vez que  tanto mais podeis orar, quanto mais distante vos encontrais do tumulto das tribulações que sofremos nesta nossa terra.

A carta sinodal eu a enviarei quanto antes, mas um pouco mais tarde, uma vez que deixei partir o portador desta, o irmão e nosso coepíscopo Bacauda, por me encontrar pressionado, por muitas e graves responsabilidades, nesses primeiros tempos da minha ordenação”.

 

Gregório foi também um homem eminentemente prático, na sua missão de administrador de todo o patrimônio pertencente à Sé Apostólica, e podemos dizer que foi um fiel e deveras excelente administrador. Certamente, muito contribuiu para isso, a sua longa experiência como “praefectus Urbis”, isto é, como responsável pela administração da cidade de Roma, como também a sua experiência dos negócios políticos, cuidando dos interesses da Sede Apostólica de Roma junto ao governo imperial em Constantinopla.

 

A longa coleção de suas epístolas é, sob este especial ponto de vista, de uma riqueza inestimável, pois nos quatorze livros em que foram reunidas, encontramos cartas versando sobre todos os assuntos e problemas, desde as mais altas considerações teológicas ou políticas, até aquelas em que trata da administração das terras, das vacas e cabras. Cartas dirigidas ao Imperador ou aos Patriarcas de Constantinopla ou Antioquia, em um estilo burilado e clássico ou aquelas em estilo simples e espontâneo, em que envia suas ordens, diretivas e conselhos aos bispos, abades ou administradores das terras do seu patrimônio.

 

Já pudemos conhecer um exemplo das primeiras, lendo a sua pungente lamentação, após sua elevação ao Sumo Pontificado, dirigida ao Patriarca João de Constantinopla.

 

Como exemplo do outro tipo epistolar de Gregório, seria suficiente e ilustrativo citar alguns trechos de sua carta ao Subdiácono Pedro, seu Administrador na Sicília (lI.50).

“Fiquei sabendo que o mosteiro de monjas, situado no sítio Monasteo, tem sofrido violência da parte da nossa Igreja no terreno de Villa-Nova. Consta ter sido deixado em herança para aquele mosteiro. Se isto for verdade, a tua experiência restitua àquelas monjas tanto o terreno como os proventos devidos aos alugueis destes dois últimos períodos...

As vacas que já se tornaram estéreis pela idade e os bois totalmente inúteis, devem ser vendidos, a fim de que, ao menos o preço conseguido nos traga algum benefício...

Reprovei asperamente a Romano, devido à sua incúria, pois, como agora é do meu conhecimento, na direção do asilo preocupou-se mais com os rendimentos do que com o socorro dos pobres...

Além disso, quero que saibas ter eu tratado muito mal o monge Precioso, por causa de uma culpa nada grave. Após tê-lo mandado embora, triste e amargurado, sinto-me agora bastante atormentado na minha consciência. Escrevi ao bispo Maximiano para enviá-lo de volta, se assim desejasse, mas o bispo se recusou absolutamente. Como não posso e nem devo contristá-lo, por estar se ocupando com as coisas de Deus, deve ser animado com consolações e não deprimido pela amargura. Por este motivo, se tiveres uma luz de maior sabedoria neste teu pequeno corpo, procura encaminhar essa questão de modo que se faça a minha vontade e que o bispo não fique entristecido...

Além disso, fiquei sabendo que não ignoras o fato de que alguns bens e diversos terrenos sob tua administração, pertencem por direito, a outras pessoas. Mas, por motivo de críticas ou por temor de pessoas, tens medo de restitui-los aos seus donos. Se fosses verdadeiramente cristão, temerias mais o juízo de Deus que o falatório dos homens. Vê que eu também continuamente te admoesto. Se negligenciares o cumprimento deste dever, terás a minha voz, como mais uma testemunha contra ti...

Além disso, mandaste-me um cavalo miserável e cinco bons asnos. Não posso cavalgar o cavalo, por ser miserável; também não posso montar os asnos, por serem asnos. Pedimo-te pois, se desejas mesmo nos ajudar, que tragas contigo algo decente...

Ao abade Eusébio desejamos que lhe dês cem sólidos de ouro, que serão descontados, naturalmente, da tua conta. Ficamos sabendo que Sisinnio, que foi governador do Sannio, na Sicília, está passando pela aflição de grande pobreza. Queremos que lhe sejam entregues vinte décimas de vinho e quatro moedas de ouro, anualmente.

Consta que Anastasio, homem religioso, perto da cidade de Palermo, esteja habitando na capela de Santa Inês; queremos que lhe sejam dados seis sólidos de ouro.”

 

O editor e tradutor das Cartas de Gregório Magno, da Editora Città Nuova, Vincenzo Recchia, assim se exprime em sua Introdução:

 

“O Registrum Epistolarum é a coletânea das cartas gregorianas que nos permite conhecer o grande Pontífice no meio de sua atividade de pastor de almas, de homem de governo, de grande escritor.Trata-se de uma obra complexa na sua composição, diversificada pelos temas que de tanto em tanto reaparecem em suas epístolas, capazes, portanto, de documentar detalhadamente: as intervenções por ele realizadas na vida pública do Ocidente, a sua presença no governo da Igreja, a sua atividade de reformador e administrador do patrimonio pontifício. Dessas cartas emerge ainda o interesse de Gregório por todos os problemas que possam interessar cada pessoa em particular, desde os de alta espiritualidade, às necessidade e exigências da vida cotidiana; o especial cuidado pela vida consagrada na Igreja, em todas as suas formas, da conversio nos mosteiros à uma vida religiosa dentro do ambiente doméstico; do relacionamento com os bispos, às questões de fundação, de governo, das necessidades materiais e de disciplina nos mosteiros[5]

Julgamos que seria, portanto, não somente oportuno, mas também deveras interessante, conhecer o que diz o Pontífice especialmente em suas cartas dirigidas aos monges, aos abades ou então aos bispos que possuem algum mosteiro ou abadia, em seus territórios,  e que  por isso participam também da sua responsabilidade por aqueles que habitam na Casa de Deus.

I.  O apreço de Gregório pela Vida e Vocação Monásticas.

a) vida - Como freqüentes vezes acontece em nossas vidas, após termos perdido algum bem recebido é que aprendemos a avaliar mais devidamente todo o seu valor. É certamente este o caso de Gregório. Após ter sido obrigado a deixar a tranqüilidade da sua vida monástica para assumir as imensas preocupações e trabalhos do supremo Pontificado é que ele  passa a sentir o quanto realmente perdera. Entre várias cartas, no início do seu pontificado, em que se lamenta das grandes dificuldades em que se encontra,  aquela à Teoctista, irmã do imperador, é talvez a mais significativa e bela (I,5):

“Admiro-me, na presente conjuntura em que assumi o ofício pastoral, conjuntura pela qual, sob o pretexto do episcopado, fui reconduzido ao mundo e sobrecarregado com tantas preocupações terrenas como não me recordo jamais te-las encontrado, nem mesmo em minha vida secular,  admiro-me - digo - que me privastes do conforto que ha tempos me concedieis. Perdí as grandes alegrias da minha quietude e, enquanto interiormente desci para o fundo, parece-me ter subido exteriormente. Por este motivo, sofro por ter-me afastado da face do meu Criador. Procurava deveras, cada dia, tornar-me estranho ao mundo e à carne, afastar dos olhos da mente todas as imagens corporais, procurando contemplar, com olhos do espírito, as alegrias do céu, e dizia não somente de boca, mas do mais fundo do coração, anelando pela visão de Deus: “A ti falou o meu coração: procurei a tua face, a tua face ó Senhor, eu procurarei”. Não desejando e nada temendo neste mundo, parecemía-me já estar, de certo modo, acima de todas as coisas, e assim acreditava ter-se quase realizado para mim a promessa do Senhor, que aprendera do profeta: “Elevar-te-ei sobre as alturas da terra.” É elevado, de fato, sobre as alturas da terra, aquele que calca, com desprezo do coração, aqueles bens que antes pareciam elevados e gloriosos na vida presente. Mas, de repente, do ápice das coisas, empurrado pelo turbilhão desta tentação, fui precipitado no temor e na ansiedade, porque, embora para mim mesmo, não tenha medo de nada, temo bastante, no entanto, por aqueles que me foram confiados. Fui como que sacudido, de todos os lados, pelas ondas dos problemas e submerso pela tempestade a ponto de dizer: “Cheguei até o fundo das águas e as ondas me submergiram”.  Depois de ter-me desincumbido das questões do meu ofício, desejo voltar à intimidade do coração, mas não posso: sou como que repelido pelo tumulto dos pensamentos. Por este motivo encontro-me distante do que está dentro de mim, a ponto de não poder obedecer à palavra da profecia que diz: “Voltai ao coração, vós prevaricadores”

 

Esta perda inestimável vai tornar-se quase um lugar comum em inúmeras cartas de Gregório, neste início do seu pontificado. Deve-se notar, porém, que esta mesma tristeza ele já manifestara quando, por ordem expressa do Sumo Pontífice, fora obrigado a deixar o seu mosteiro e seguir para Constantinopla, no desempenho do penoso cargo de apocrisiário da Sé Apostólica (Prefácio Coment.Jó n.1):

 

“Porque muitas vezes a barca incautamente amarrada, com o aumentar-se da tempestade, é repelida pelas ondas do mar, mesmo de um lugar seguro do litoral, assim, repentinamente, me encontrei  no meio do mar dos problemas do mundo, sob o pretexto da missão eclesiástica; e porque não me agarrei tão fortemente à tranqüilidade do mosteiro, ao perde-la conheci o quanto estritamente deveria tê-lo feito”.Para Gregório, o valor da vida monástica não reside somente na oportunidade que traz aos monges para o aperfeiçoamento da vida espiritual. O mosteiro, como local onde vive a comunidade, fiel e observante, passa a ter um valor em si mesmo, como testemunho de vida cristã para os fieis deste lugar e até mesmo como sinal das graças e da proteção de Deus sobre esse mesmo lugar onde se encontra. Neste sentido é bem significativo o que diz Gregório ao seu procurador Symaco, em relação a um lugar conveniente a um mosteiro, na ilha da Córsega (I,50)

 

“Eu quero que, além do lugar já destinado a este fim (fundação do mosteiro), se providencie um outro lugar. É necessário procurar, por causa das incertezas dos tempos, um lugar junto ao mar, que seja defendido pela sua própria posição natural, ou possa ser fortificado sem grande dificuldade, para que enviemos os monges para lá. E aquela ilha que até agora não possuía um mosteiro, será levada a progredir (espiritualmente) através da presença da maneira de viver (conversatio) dos monges”

O valor “eclesial”, se assim podemos dizer, de uma comunidade monástica, em determinada igreja ou local, transparece ainda de uma resposta de Gregório a Agostinho, na Inglaterra. Tendo este perguntado de que modo deveriam viver os monges, naquela região nova e a ser evangelizada, responde o Papa que deverão viver segundo o exemplo da primitiva comunidade de Jerusalém, como veremos logo adiante.

 

b) vocação. O sentido profundo de todas as lamentações de Gregório só será bem compreendido se tivermos diante dos olhos a sua própria concepção sobre a natureza da vida e da vocação monástica. Para ele, antes de tudo, o monaquismo é uma graça de Deus, uma vocação (vocare=chamar) no sentido mais pleno da palavra e que nos faz compreender o que a todos não foi dado. É a advertência evangélica: “qui potest capere capiat”, dirigida ao jovem rico, mas que continua a se fazer ouvir, ao se repetir o chamado: “si vis perfectus esse...” É também a mesma renúncia imediata e total, exigida para a perfeita seqüela do Cristo: “vai, vende o que tens  e dá aos pobres, depois vem e  segue- me”.

 

A vocação monástica comporta, portanto, dois momentos: o chamado da graça e a nossa resposta a ele, através do verdadeiro arrependimento e desapego dos bens terrenos. Raras vezes Gregório se refere à vocação monástica sem acentuar o seu aspecto sobrenatural. Chama-o “conversationis gratia” ou  “divina inspiratio”. Mas, ao mesmo tempo, mostra as exigências para a sua veracidade.

 

Algumas vezes, como no caso de Agostinho e o grupo de monges enviados à Inglaterra, Gregório se vale dos monges para o bem da missão eclesial. Mas, mesmo nestes casos, Gregório, respondendo a uma pergunta de Agostinho, insiste em que os monges, mesmo no meio das novas circunstâncias da missão entre os pagãos, devem viver reunidos, formando a comunidade monástica, segundo o exemplo da Comunidade primitiva de Jerusalem. Diz Gregório: (PL 77, XI, 64)

 

“Porque a tua fraternidade, educada segundo as regras do mosteiro, não deve viver isoladamente dos seus clérigos, na Igreja dos Anglos que, com a graça de Deus, foi recentemente conduzida à fé. Deves pois, instituir aquele modo de viver que existiu entre os nossos pais, no início da Igreja, quando ninguem dizia ser seu o que possuia, mas possuiam tudo em comum”(At 4,32 ).

 

Por este motivo é que Gregório acentua o grande valor da comunidade monástica, exortando mesmo os bispos a não se oporem quando um ou outro dos seus clérigos deseje ingressar em algum mosteiro. Neste sentido é significativa a carta que envia ao bispo Desidério, na Galia, pedindo que respeite a vocação monástica de um seu diácono (XII, 35):

Gregório a Desidério, Bispo na Galia.

Pancrácio o portador desta, afirma ser diácono e se apresentando à esta Sede Apostólica nos pediu que o recomendássemos, de modo especial, à Vossa Fraternidade. Fez-nos saber que é clérigo incardinado na vossa Igreja. Mas, tocado por divina inspiração, desejou a graça de ingressar na vida monástica e desejando permanecer naquele santo habito que recebeu, manifestou que também aceitou a ordenação do diaconato, para serviço daquele mosteiro. E nenhuma razão existe para que seja retirado do serviço deste lugar. Agora, porém, como ele afirma, Vossa Fraternidade, não com a intenção de obstar, mas até pelo afeto de vossa benevolência, deseja revocá-lo para o serviço de vossa igreja. Nós pois exortamos a que Vossa Fraternidade não ponhais nenhum impedimento à sua tão pronta devoção de permanecer naquele santo propósito. Ao contrário, procurai animá-lo, o quanto possível, pelas vossas pastorais exortações, para que nele não se arrefeça o fervor deste desejo. Assim, aquele que procurou se afastar do turbulento tumulto dos cuidados do século, procurando a paz no porto do mosteiro, não deve ser envolvido novamente nas perturbações da administração eclesiástica, mas lhe seja pemitido permanecer, como pede, nos louvores de Deus, livre de tudo isto.”

 

A legislação eclesiástica a esse respeito foi fixada pelo sínodo romano de 601 (cf.PL 77 col 1337) e a fórmula do decreto, aprovado por grande número de bispos, revela uma compreensão profunda do verdadeiro significado da vocação monástica, como se verá no final.

 

Outra carta, bastante semelhante à anterior, revelando a  alta estima de Gregório pela vocação monástica e as expressões características das suas exigências, é a carta de Gregório ao abade Urbico, do Mosteiro de Santo Hermes, em Palermo, recomendando que receba o portador da carta, com extrema solicitude e caridade, para iniciar a sua provação monástica naquele mosteiro .(VI. 49).

 

“Gregorio ao Abade Urbico, do Mosteiro de Santo Hermes, em Palermo.

“Quem quer que,  compungido por divina inspiração, deixando todas as atividades deste século, apressa-se por se converter para Deus, deve ser acolhido com caridade e reconfortado por muitas suaves consolações, de modo que, com o auxílio de Deus, alegre-se por perseverar, de todo  modo, naquela maneira de viver que escolheu. Porque Agatão, o portador desta carta, deseja viver sua conversão no mosteiro de tua caridade, nós te exortamos a recebê-lo com toda suavidade e piedade, e por assíduas exortações, afervores o seu desejo da vida eterna. E sobre a salvação da sua alma, diligentemente procura ser solícito, enquanto, perseverando ele piedosamente no serviço do nosso Deus, por teus conselhos seja-lhe proveitoso ter abandonado  o mundo e por sua vez, a sua conversão seja de proveito para tua recompensa. Porém, sabe que ele somente deverá ser recebido, caso a sua esposa igualmente deseje se converter. Pois enquanto um e outro corpo se tornaram  um só, pela união do matrimônio, é inconveniente que uma parte se converta e a outra parte permaneça no mundo”.

 

Mais do que a repetição dos termos característicos da conversão monástica, sobressai nesta carta a preocupação cheia de afeto e ternura de Gregório para que a vocação daquele candidato seja realmente cuidada, animada e incentivada, devendo merecer, para isso, toda a futura paterna dedicação do seu abade.

Mais notável ainda e quase escadaloso, poder-se-ia dizer, é o fato de Gregório tanto se entusiasmar com a vocação desse jovem a ponto de recomendá-lo tão calorosamente ao abade e somente no final, parece lembrar-se de que ele era casado e só poderia ser  recebido no mosteiro, caso a sua esposa também aceitasse em fazer-se religiosa !!

 

c. Objetivo, finalidade da Vida Monastica. Outro elemento fundamental do modo de viver monástico aparece também claramente no texto antes citado do livro dos Comentários morais sobre o livro de Jó. É a finalidade, o objetivo a que o monge se propõe atingir, expresso pela fórmula comum não só a Gregório, mas também a outros escritores. Trata-se do esforço constante para atingir o “culmen perfectionis” ou seja, o cume da perfeição. Gregório a ela se refere com uma citação de São Paulo: “mortui enim estis et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo”(estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus).

 

A perfeição para o monge estará em procurar uma progressiva incorporação em Cristo, através do desapego de tudo o que dele possa nos separar. E enumera, no texto acima mencionado, os meios para a consecução desta meta.

Em outros lugares, tal meta da perfeição é denominada simplesmente: culmen contemplationis.

Fiel à tradição de Agostinho, Cassiano e dos Padres Gregos, Gregório não só admite a célebre distinção entre a “vida ativa” e a “vida contemplativa”, mas dela se utiliza freqüentemente e a enriquece com a sua doutrina sólida e segura. Não é nosso intento aprofundar aqui o sentido desta experiência de contemplação. Desejamos de início, constatar simplesmente a sua relação freqüente com a experiência da própria vida monástica.

Na concepção de Gregório embora haja uma distinção muito clara entre a vida monástica e a vida sacerdotal, ambas pertencem à dimensão da Igreja e devem esforçar-se para que sejam o seu ornamento precioso. Clérigos e monges devem, portanto, em sua própria vocação, zelar para que, auxiliando-se mutuamente, sejam corrigidos e superados os problemas e conflitos.

Inúmeras vezes, falando da sua vida no mosteiro, Gregório parece simplesmente identificar a vida monástica com a vida contemplativa (Pref.in Dialog. n.3):

A minha infeliz alma, tocada pela ferida das suas ocupações, lembra-se de que modo se comportava no mosteiro; como todas as coisas faliveis se encontravam abaixo; como se sobrepunha a tudo que passa; como costumava pensar unicamente nas coisas do alto; como, ainda retida no corpo, já ultrapassava,  pela contemplação, os limites do corpóreo.”

 

Expressões semelhantes, para descrever e relembrar a sua vida no mosteiro e a experiência contemplativa que aí vivia, podemos encontrar na carta dirigida a Lendro bispo a Espanha (IX, 228):

“Navegava como impulsionado por rápido vento, quando levava no mosteiro uma vida tranquila. Mas, subitamente, com vagas procelosas, a tempestade iniciada envolveu-me em sua  perturbação, e assim, perdi a certeza do cominho, pois uma vez perdida a paz de alma cheguei mesmo a naufragar.”

E, um pouco antes, na mesma epístola, tentava descrever o que isto significava para a experiência da sua vida interior:

 

“E agora muito me deprime a pesada honra (do meu cargo), múltiplas preocupações se agitam e quando a alma procura se recolher, voltando-se para Deus, ela é como que dividida  pelas espadas de seus próprios impulsos. Nenhum sossego ao coração, que permanece prostrado  e oprimido pelo peso de seus mais íntimos pensamentos. Quase nunca, ou muito raramente, é ele elevado pelas asas da contemplação”.

Poderíamos ainda reler, com mais atenção, o que diz Greório sobre a sua experência de contemplação enquanto ainda gozava do auxílio da situação e disciplinas do seu mosteiro, na mesma carta à Teoctista (I, 5):

 

Procurava pois, diariamente, distanciar-me do mundo e da carne, afastando todos os fantasmas corporais dos olhos da alma; contemplar, com os olhos do espírito, as alegrias do céu e dizia, não somente com a boca, mas do mais profundo do coração, anelando pela visão de Deus: “ a ti disse o meu coração: procurei o tua face, a tua face ó Senhor eu buscarei.” Não desejando e nada temendo neste mundo, parecía-me estar já, de certo modo, acima das coisas; assim eu acreditava que estivesse quase realizado em mim, pela promessa do Senhor, o que aprendi do Profeta: eu te levantarei sobre as alturas da terra. É levantado, de fato, sobre as alturas da terra, aquele que calca, com o desprezo do coração, aqueles bens que parecem elevados e gloriosos na vida presente.

Nestes poucos textos já transparece um duplo significado da palavra contemplação, tal como é usada por Gregório. Primeiramente a ela se refere designando a própria vida monástica, em seu aspecto geral, mas acentuando de modo especial as observâncias que visam criar um ambiente propício à leitura da Escritura, e à meditação pessoal, tais como a do silêncio, do afastamento da agitação do mundo, da vida de autoridade e de renúncia aos apegos das falsas riquezas deste mundo.

Neste sentido, é Gregório um dos primeiros Padres da Igreja a comparar o modo de viver do monge, como vida contemplativa, a Raquel, esposa de Jacó, quem este muito amava apesar de ser estéril.

E a  vida ativa, à qual teve que voltar, com suas inúmeras preocupações, é comparada com Lia, mais fecunda em filhos, mas deficiente na sua visão.

Em segundo lugar, nota-se que Gregório ao falar da contemplação, procura, embora em poucas e escolhidas palavras, descrever de algum modo, a sua experiência interior de união com Deus e dos elementos que parecem fazer parte desta mesma experiência, quer como condição prévia, quer como efeitos.

Aproveita a ocasião para uma explicação teológico-espiritual da própria experiência monástica que então vivia, como sendo uma “vita contemplativa”, justamente porque poderá ajudar o monge a chegar à verdadeira experiência da contemplação. Assim na mesma carta (I,5) diz ainda:

“Amei a beleza da vida contemplativa, como a estéril Raquel, vidente e bela, porém menos fecunda, devido à sua quietude, mas penetrando na luz com maior profundidade. No entanto, não sei por que autoridade, durante a noite uniu-se a mim Lia, isto é, a vida ativa, fecunda mas míope (lippa), com menor visão, porém mais fecunda em filhos. Apressei-me por assentar-me com Maria, aos pés do Senhor, acolher as palavras de seus lábios, e eis que fui obrigado, como Marta, ao serviço das coisas exteriores, e preocupar-me com muitas coisas”. 12

Na carta a Anastásio Patriarca de Antioquia (I,7) refere-se também à sua própria experiência pessoal:

“Nesta situação, perdendo totalmente a retidão do coração e apagando-se em mim a agudeza da contemplação, direi, não com espírito profético, mas por experiência: “Fiquei encurvado e humilhado por todo lado”. Fui oprimido pelas ondas de numerosos questões e afligido pela tempestade da vida tumultuosa, a ponto de dizer na verdade, “fui impelido para o mais profundo do mar e a tempestade me submergiu”[6]. 

 

Percebe-se assim, nesses poucos textos, que a experiência da contemplação não está reservada somente a algumas pessoas com carismas especiais ou com extraordinária capacidade ascética. Gregório dá a entender que a experiência contemplativa necessita de algumas condições e que estas podem ser encontradas tanto na vida monástica (talvez com maior facilidade) ou na própria vida cristã, vivida com fidelidade às graças e apelos do Senhor.

Em várias ocasiõs, escrevendo a amigos pessoais, insiste fortemente sobre a necessidade de uma meditação diária da Sagrada Escritura, inclusive para as pessoas leigas, e de outras exigências que podem predispor a uma mais profunda experiência de Deus na vida cristã. Por exemplo, a carta a Teodoro médico do Imperador (V, 46):

“Gregório a Teodoro, médico do Imperador.

Dou graças a Deus Onipotente, porque lugar algum poerá separa as almas daqueles que se amam verdadeiramente. Pois eis que agora, queridíssimo e ilustríssimo filho, estamos distantes fisicamente, e no entanto, nos sentimos presentes um ao outro, pela caridade. Sobre esse fato testemunham as vossas ações, vossas cartas; isso experimento, estando tu presente, isso reconheço mesmo sendo ausente a tua pessoa. Isso torne agradável aos homens e digno diante de Deus Onipotente, para sempre.

...Mas, como aquele que mais ama é o mais audaz, tenho uma queixa contra a queridíssima alma de meu ilustríssimo filho, o senhor Teodoro, porque recebeu da

Trindade santa o dom do inteligência, o dom dos bens materiais, o dom da misericórdia e da caridade, e não obstante, permanece preso constantemente pelas questões do século, preocupado com frequentes problemas e se descuida de ler, cada dia, as palavras do seu Redentor.

Pois, que é a sagrada Escritura se não uma carta de Deus Onipotente à sua criatura? E certamente, se a tua pessoa se encontrasse em determinado lugar e recebesse uma carta do imperador terreno, por ventura iria se repousar ou descansar, ou até iria dormir, sem antes tomar conhecimento do que o imperador terreno lhe teria escrito?

O imperador do céu, o Senhor dos homens e dos anjos, para o teu bem enviou suas cartas, e no entanto, ilustríssimo filho, descuidas de ler, com ardor essas mesmas cartas.

Esforça-te, eu te suplico, e medita cada dia as palavras do teu Criador; procura conhecer o coração de Deus através das palavras de Deus, para que suspires com maior ardor pelos bens eternos, para que o teu coração se inflame com maiores desejos da vida eterna. Pois então terás maior descanso, enquanto que agora, nenhum descanso tens no amor do teu Criador. E para agires  assim, Deus Onipotente infunda em ti o seu Espírito Consolador. Que ele encha o teu coração com a sua presença, e enchendo-o, o eleve”

 

II. Os elementos próprios da “conversatio” monástica

Tendo considerado alguns textos em que aparecem o valor e a riqueza própria da vida e da vocação monástica, procuremos agora destacar alguns elementos essenciais desta mesma “conversatio”, tal como são mais ou menos acentuados naquelas mesmas Epístolas.

Um dos principais elementos da vida do monge é justamente o seu compromisso de viver constantemente segundo um “modo de vida”, que esteja de acordo com uma norma ou regra da própria vida monástica. Embora todos reconheçam ser o próprio Evangelho a norma e regra fundamental de toda vida cristã, a tradição monástica foi, aos poucos, reunindo diretivas, conselhos ou observâncias práticas, fruto da experiência de seus pais espirituais. A este modo de viver “segundo uma regra monastica”, que reunia assim toda a experiência provinda desde os tempos apostólicos, chamou-se de “conversatio” monástica.

É natural que esta “conversatio” necessite ser especificada e atualizada em diversos elementos ou atitudes concretas, que são consideradas mais ou menos importantes ou necessárias, segundo a própria visão ou experiência dos mestres espirituais.

Ainda hoje, para mencionar apenas dois abades conhecidos por serem fontes de importantes movimentos de revitalização do monaquismo, podemos constatar certa diferença entre a enumeração que cada um faz dos elementos mais importantes da “conversatio”.

 

Dom Guéranger, restaurador do monaquismo na França, no século passado, enumera os seguintes seis elementos: separação do mundo, celebração cotidiana e solene do serviço divino, trabalho, mortificação do corpo, vida em família, obras de apostolado.

Dom Mauro Wolter, o restaurador do monaquismo na Alemanha, na mesma época, se refere mais especialmente aos elementos da vida beneditina: vida conventual no mosteiro, ofício divino cotidiano no côro, vida de exatíssima pobreza, disciplinas de mortificação, trabalho sob a obediência, obras de caridade para com o próximo, organização do mosteiro segundo a Regra. Ao todo são sete elementos. Alguns são idênticos nas duas listas, outros são diversamente enunciados e valorizados.

 

À luz dessas considerações sobre a “conversatio” monástica, poderemos agora fazer uma leitura em diversas epístolas de Gregório, procurando perceber qual a sua própria maneira de apresentar e valorizar os diversos elementos.

 

1) Necessidade de uma vida em comunidade sob uma regra monástica

 

É freqüente, nas epístolas de Gregório aos monges ou abades a exigência de viverem todos reunidos em comunidades, sob a autoridade de um abade e uma regra monástica.

 

Mais de uma vez o Papa envia cartas severas para impedir a continuação do costume de monges, esparsos, em uma região, continuarem a viver, sem regra e sem obedecer a um superior. Excelente exemplo, neste ponto, é a epístola dirigida a todos os monges habitando a pequena ilha de Monte Cristo, no mar Tirrênio (I, 49):

“Gregório a todos os monges da ilha de Montecristo.

Ficamos sabendo que não obedeceis a nenhum ordenação de uma regra monástica. Por este motivo, somos forçados a enviar-vos o abade Orósio, portador deste decreto, para que, depois de haver observado atentamente a vossa conduta, determine tudo o que lhe parecer justo e nos comunique depois o que assim for determinado. Exortamo-vos, pois, a prestar-lhe a máxima obediência e a observar com a devida veneração tudo o que tiver ele disposto, como se fosse por mim disposto”.

Em outra epístola, agora para a Sicilia, ordena igualmente que os monges dispersos sejam reunidos em um mosteiro, e neste caso, recorre até mesmo à autoridade do bispo do lugar (I, 39):

Gregório ao subdiácono Pedro.

O venerável Paulino, bispo de Taureana, da província de Abruzo, nos informa que os seus monges, dispersos após a invasão dos bárbaros, estão vagando por toda a Sicília, e privados como estão de qualquer direção, não se mostram temerosos por suas próprias almas e nem se aplicam à disciplina do seu estado. Por este motivo te ordenamos  procurar estes monges, com todo cuidado e solicitude,  recolhê-los e colocá-los todos sob a direção e disciplina do seu bispo, no mosteiro de São Teodoro, em Messina. E assim, os monges que agora aí vivem e que soubemos estarem privados de superior, e aqueles outros da comunidade de Paulino, que encontraste e reuniste, possam agora juntos, servir a Deus todo poderoso sob a autoridade do seu bispo.

Também em uma carta ao Subdiácono Antemio, Gregório volta a insistir na necessidade de reunir os monges dispersos e com palavras bem características e semelhantes, em parte, à Regra beneditina,  descreve os vícios dos que se afastaram do seu mosteiro, da regra do seu abade e até mesmo da exigência básica do monaquismo. Podem ser chamados, giróvagos, acéfalos, inobservantes (I, 40):

“Gregorio ao Subdiácono Antêmio.

O nosso irmão no episcopado João, por meio do seu clérigo Justo, nos fez chegar um relato, no qual, entre outras coisas, nos faz saber que alguns monges de mosteiros da diocese sorrentina vagueiam de mosteiro a mosteiro, ao seu bel prazer, e se subtraem da regra de seu abade, por desejo das coisas do mundo e o que é sabido não lhes ser permitido, cada um se entrega ao vício da “peculiaridade”. Por isso, pela presente ordenação mandamos à tua experiência que não permita a um monge passar de um mosteiro a outro, e a ninguem seja permitido possuir algo de próprio. Mas, se alguém se comportar de tal maneira, seja reconduzido, com a devida coerção, ao mosteiro no qual anteriormente viveu, sob a regra do seu abade, e da qual procurou fugir. Se deixarmos continuar, sem corrigir, um tão grande abuso, não venha acontecer que sejam pedidas contas das almas que se perdem, a começar pelas almas dos superiores. ... E porque também ficamos sabendo que alguns monges, chegaram a tal ponto de iniquidade, que passaram a viver publicamente com suas mulheres, procura-os com toda atenção, e tendo-os encontrado, devolve-os, com a devida coerção, aos mosteiros a que pertenciam”.

É natural que em suas cartas Gregório procure corrigir os erros e abusos, para defender assim o valor da vida comunitária. Mas, a sua insistência, como também o seu rigor, nos revelam o quanto era importante esta maneira de viver, para a própria verdade da conversatio monástica.  Poderíamos encontrar um outro exemplo, bem  mais positivo, na carta que Gregório dirige a seu grande amigo Leandro, bispo da Espanha e que colocou como Prefácio aos seus Comentários ao Livro de Jó, dedicados ao mesmo Leandro (CC 143, 2).

 

Gregório se refere ao tempo que residia em Constantinopla e exercia a importante função de Apocrisiário da Sé Apostólica, ou seja Embaixador ou, como diríamos hoje, Núncio do Papa junto ao Imperador.

 

Gregório relembra então a ocasião em que iniciou os seus Comentários ao livro de Jó, atendendo justamente o pedido dos monges que viviam com ele, formando assim uma pequena comunidade monástica. Gregório explica o porquê deste grupo e qual o grande valor e significado para a sua vida.

“Para onde me seguiram muitos dos meus irmãos do mosteiro, animados por uma fraterna caridade.

Considero que isso se tenha realizado por uma divina providência, para que, pelos seus exemplos, pudesse buscar a plácida praia da oração, me envolvendo como na corda de uma âncora, quando me sentia hesitante sob a pressão das preocupações mundanas.

Na companhia deles, como na profundidade de um seguríssimo porto eu me refugiava, fugindo do turbilhão das vagas das atividades mundanas. E embora este ministério (eclesiástico)  tendo me retirado do mosteiro e pela intensidade de suas ocupações, tenha suprimido para mim a vida da antiga quietude, ao estar com os meus irmãos, novamente me animava, pela  cuidadosa exortação da leitura (da Escritura) e o cotidiano desejo de conversão.”

João Diácono, o autor da primeira Vida de  Gregório, afirma que também como Papa ele procurava viver “na companhia dos seus irmãos, dia e noite, em nada prejudicando a perfeição da vida monástica, no palácio em que vivia, como também nada omitindo das exigências do seu ministério pontifical na Igreja.

Podiamse ser vistos, frequentemente, na companhia do papa, clérigos muito eruditos, como também, monges deveras religiosos. Embora fossem diversas as profissões, mantinha-se vida comunitária. E nesse tempo, pode-se dizer, tal foi a Igreja em Roma, no tempo de Gregório, como fora sob o apóstolo Lucas e sob Marcos evangelista em Alexandria, assim como lembra Philo”[7].

2) Afastamento, Separação do mundo ou Recolhimento.

 

Lembrada em primeiro lugar por Dom Guéranger, a separação do mundo não dever ser vista de maneira negativa, como a expressão primitiva de “fuga do mundo”, nos poderia levar a crer. Trata-se muito mais de buscar o ambiente necessário para a “experiência do deserto”, tema bíblico do AT e tão presente em toda as vocações para o serviço de Deus.

 

Se não é o tema mais importante, trata-se ,pelo menos, de um daqueles pelo qual o santo Papa Gregório muito se preocupa. Sabe, por experiênica, que sem o recolhimento, o silêncio e um certo distanciamento das agitações e preocupaçõe da vida no mundo, dificilmente se chegará a uma  verdadeira vida de oração, contemplação e união a Deus. Por este motivo, em várias cartas, Gregório manifesta o seu desejo de que a administração do mosteiro, enquanto exige freqüente contato com os seculares, e principalmente nas ações civis em tribunais, seja realizada através de um procurador leigo, do que pelos próprios monges. Neste sentido, orienta o subdiácono Pedro, seu procurador na Sicilia, a assim proceder na ajuda ao mosteiro do abade João de Siracusa (I, 67):

“Gregório a Pedro subdiácono na Sicília

Como é justo manter os monges afastados das questões forenses, para que possam permanecer com piedade e vigilância nas funções divinas, assim é necessário dispor, como é da nossa obrigação, a organização dos seus negócios, de modo que suas mentes, distraidas pelos cuidados das coisas temporais, e enfraquecidas, não venham a se tornar entorpecidas, na celebração costumeira do serviço divino.

O portador desta, o abade João, afirma estar com  um grande número de negócios que devem ser resolvidos em benefício do seu mosteiro. Por este motivo, com o texto do presente decreto exortamos a tua experiência a falar com Fausto, ex-chanceler do magnífico ex-prefeito Romano. Se o encontrares propenso a aceitar este serviço, deverás confiar-lhe os negócios do mosteiro, de modo geral, tendo antes estabelecido uma devida retribuição. É conveniente,que, com um pequeno aumento das despesas, possam os monges permanecer em paz, fora da agitação das questões (forenses), de tal modo porém que, por negligência, isto não venha a ser causa de grave prejuizo para a economia do mosteiro. Assim o espírito dos monges permanecerá mais disponível para o Ofício Divino.”  

Em uma carta posterior, dirigida agora ao próprio abade João, Gregório o repreende por certa incúria, mas o exorta novamente a não se envolver pessoalmente com as questões do mosteiro quue o obriguem a sair freqüentemente. Deve pois nomear um procurador para  que possa dedicar-se mais aos exercícios da vida cenobítica (III, 3):

Sê especialmente solícito pelas almas dos irmãos. Já basta que a fama do mosteiro, por tua negligência, tenha ficado comprometida. Não saias freqüentemente fora do mosteiro. Para este negócios procura nomear um procurador e tu permanece na leitura e na oração”. 

3) Desapego, Renúncia total ao mundo e aos bens materiais. O vício da “peculiaritas” ou da propriedade particular.

O aspecto exigente e mesmo radical do desapego dos bens, na vocação  do monge, aparece nesses textos de um modo bem claro, como uma das condições fundamentais do modo monástico de vida. Veremos logo adiante, falando sobre o desapego e a pobreza, a que excesso de radicalismo chegará Gregório, para salvar este valor.

 

Deve-se dar atenção à maneira como Gregório justifica a exigência de total renúncia dos bens materiais. Trata-se, para ele, de uma questão pessoal, uma vez que, para alguns, esta exigência está relacionada com a própria possibilidade de se assegurar a salvação eterna.

Eis como expõe o conceito desta exigência, própria da vocação do monge. Embora seja um texto dos seus Comentários ao livro de Jò, esta idéia volta, freqüentemente, em muitas de suas  cartas.

“Existem pessoas santas que  podem, de fato, desejar as coisas do alto, sem contudo desistir da esperança dos bens terrenos...  No entanto, consideram como coisas estranhas as suas propriedades, porque não se apegam, pelo desejo, às coisas que possuem. Mas existem pessoas santas que, para atingir o cume da perfeição, enquanto interiormente desejam as coisas do alto, exteriormente se desfazem de tudo, Os que se desfazem  das coisas que possuem, também se desapegam da glória das honras; e aqueles que, ao desejar as coisas espirituais, continuamente se fazem companheiros da tristeza, não desejam receber consolações externas. Aqueles que já gozam das alegrias da vida interior, procuram excluir totalmente as satisfações corpóreas. Desses disse Paulo: estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.

É interessante notar que esta mesma razão com que Gregório justifica a  necessidade de deixar o mundo, para abraçar a vida monástica, é usada em uma interessante epístola ao Imperador Maurício, exortando-o, com muita suavidade, mas também com firmeza, a modificar ou revogar a lei pela qual fora proibida a entrada nos mosteiros, aos que exerciam ofícios públicos e aos soldados. A grande insistência de Gregório, forçado pela sua consciência, como diz, revela o imenso valor que atribui à vocação monástica (III, 61).

“Gregorio  ao Imperador augusto Mauricio.

,,,Nessa lei a clemência do imperador estabeleceu que aquele que esteja exercendo funções na pública administração não  pode ocupar um ofício eclesiástico. O que eu muito louvo, sabendo com muita clareza que quem depõem a veste secular para assumir um cargo eclesiástico, deseja mudar de cargo no mundo, mas não abandoná-lo.

O que se diz depois, porém, na mesmo carta, isto é, que aquelas pessoas não podem ingressar em ummosteiro, causou-me enorme admiração, uma vez que, caso tivesse dívidas no mundo, estas seriam pagas pelo mosteiro, que o tiver acolhido...

Nesta lei depois se acrescenta, que também não poderá fazer-se monge quem tiver feito o juramento militar e traz o sinal em sua mão. Ora, esta determinação, eu o digo sinceramente ao meu senhor, muito me assusta, uma vez que assim é fechado, para muitos, o caminho do céu e se proíbe o que até agora era lícito. São numerosos os que podem viver vida religiosa, mesmo com o hábito secular, no entanto, a maior parte, não poderia salvar-se,  de modo algum, a não ser que tudo abandone no mundo. Eu que digo essas coisas ao meu soberano, não sou pó e verme? No entanto, como reconheço que tais disposições vão contra Deus, criador do universo, não posso deixar de falar ao imperador.

O poder sobre todos os homens foi concedido pelo céu à clemência do meu soberano, para o seguinte escopo: que sejam ajudados aqueles que procuram o bem, que seja alargada a via que conduz ao céu, que o reino terrestre esteja a serviço do celeste. E eis que claramente se afirma que aquele que uma vez foi consignado à milícia terrena, não poderá militar por Cristo, a não ser terminado o serviço ou demitido por enfermidade.”

Em muitas cartas Gregório manifesta o quanto considera o desapego e a pobreza, isto é, a absoluta carência de bens pessoais, como elemento essencial da vida do monge e até como critério de avaliação do modo de vida de uma comunidade monástica. Neste particular, é bem característica a carta dirigida ao Subdiácono João, encarregado dos negócios da Sé Apostólica em Ravena, onde se refere ao vício da “peculiaridade”, isto é,  manter, sem permissão do abade, valores ou moedas escondidas em sua cela (XII, 6).

 

“Gregório a João, Subdiácono em Ravena.

Vieram alguns monges do mosteiro do antigo abade Cláudio, pedindo que lhes constituisse Constâncio, como abade. O que muito me desagradou neste pedido foi perceber, com que espírito mundano se manifestaram, estes que desejaram ter como abade, um homem também demasiadamente mundano. Fiquei sabendo que o mesmo Constâncio cultiva o vício da peculiaridade. Por este fato, bem se pode avaliar não ter ele um coração de monge. Depois, fui ainda informado haver ele tido a ousadia de se dirigir sozinho, sem a companhia de qualquer dos seus irmãos, ao mosteiro que se encontra na província de Piceno. Por este seu comportamento já pudemos perceber que não vive retamente, quem viaja sem testemunhas. Como iria exigir dos outros o cumprimento da regra, aquele que não a observa  para si próprio

...Esforça-te bem em dizer ao meu co-irmão no episcopado (Mariano), que se aplique, por todos os meios, para reprimir o vício da peculiaridade dos quatro ou cinco monges do mosteiro, estes, que até agora, ele não conseguiu corrigir. E que se apresse em purificar o mesmo mosteiro dessa peste, pois se alí os monges podem conservam o seu pecúlio, então, nem a concórdia, nem a caridade poderão existir na comunidade . O que é o hábito do monge senão o desprezo das coisas do mundo? Como pois poderão desprezar o mundo, esses que procuram o ouro, vivendo no mosteiro? Assim pois, proceda tua experiência, de modo que não se adie a reforma do lugar, nem volte a chegar até nós qualquer notícia desta questão.”

Embora não se encontre entre as epístolas gregorianas, seria oportuno citar um outro texto, do IV Livro dos Diálogos[8], onde se relata um fato, terrível em seu realismo, mas que bem pode manifestar o horror e a gravidade deste vício da peculiaridade, para a consciência e o coração deste santo pontífice, verdadeiro pai e protetor dos monges. Um mnge, de nome Justo, do Mosteiro de  São Gregório, antes de falecer revelou possuir três moedas de ouro escandidas na sua cela. Assim ordenou Gregório ao seu prior:

 

“Veja  que  nenhum dos irmãos visite o irmão moribundo, e não receba também nenhuma palavra de consolação. E quando, ao chegar perto da morte, ele pedir a presença dos seus irmãos, o seu irmão carnal lhe dirá que ele é abominação perante todos, por causa das moedas que escondera. Assim, ao menos na morte, conhecerá a sua alma uma amarga compunção, pela sua falta, e ele será purificado do pecado que cometeu. Quando tiver morrido, não será sepultado no cemitério monástico, mas fazer-se-á uma vala em qualquer lugar da esterqueira e nela será jogado o seu corpo juntamente com as três moedas de ouro, dizendo todos juntos: “teu dinheiro este contigo para a tua perdição. Depois o cobrirão com terra”.

Se O Papa é extremamente severo em relação ao desapego e especialmente, como vimos, com o vício da “peculiaridade”, por outro lado, deve-se reconhecer, por inúmeros exemplos, o quanto se preocupa para que as comunidades de monges ou monjas, ou mesmo,  religiosos isolados, não permaneçam em estado de extrema probresa, pois como diz, “aqueles que se consagraram ao serviço divino, não devem estar sujeitos a tal gênero de necessidade”.

Assim, por exemplo, em uma carta que é um decreto, ordena ao subdiácono Sabino que  passe a propriedade de um jardim a um mosteiro de monjas, para que não sofram mais necessidades materiais (II,46). Diz ele:

 

“Somos impelidos pela piedade a levar ajuda aos mosteiros, com próvida consideração, a fim de que aqueles que se consagraram ao serviço divino não estejam sujeitos a qualquer necessidade, Deus não permita. Por este motivo, com a autoridade deste decreto, ordenamos à tua experiência que o jardim, antes pertencente ao presbítero Feliciano, situado na região primeira, diante dos degraus para Santa Sabina, afastada qualquer desculpa, seja doado em  propriedade, sem  exitação, ao mosteiro de Euprepia, onde reside uma comunidade de monjas; para que, ajudadas por este benefício da nossa generosidade, possam perseverar com o auxílio de Deus e com tranquilidade, no serviço de Deus”.

Em outra carta (III,17) relembra ao Subdiácono Gracioso, “que devemos ter, na devida consideração, aqueles que escolhem a vida religiosa, para que a necessidade não os torne  inoperantes ou que venha impedir - o que Deus não permita - o vigor deste gênero de vida.” Ordena então que seja dada à abadessa Flora, uma casa com o seu jardim, de propriedade da santa Igreja Romana.

“Nesta casa, com o auxílio de Cristo, Flora poderá construir o mosteiro onde habitará com a sua comunidade, a fim de que, tanto ela como a outra que lhe suceder, possua, com tranquilo e pacífico direito, a casa, o jardim e o que nele se encontra, como dissemos e foi por nós concedido por motivo de caridade”.

Um tal preocupação de Gregório torna-se ainda mais relevante quando nos lembramos de que cabia à Sé Apostólica de Roma o sustento e a manutenção de todas as monjas que aí residiam. E como fora grande o afluxo de pessoas que procuravam um refúgio em Roma, fugindo dos Lomgobardos, acredita-se que o número de monjas na cidade, não fosse pequeno, conforme afirma Vincenzo Recchia[9].

Gregório não somente revela uma grande sensibilidade para atender com caridade às necessidades das comunidades de monjas ou monges em  dificuldades materiais, mas mostra-se também exigente para com os abades e bispos que parecem estar esquecidos desse dever fundamental de seus ofícios, que é o socorro dos pobres.

Assim, em uma carta (VI, 33) ao monge Secundo, de Ravena, pede que transmita a Mariano, bispo desa cidade e que havia sido antes monge do mosteiro de Gregório, no Celio, uma recomendação insistente e enérgica, não isenta de fina ironia, e que merece ser bem conhecida.. Diz Gregório:

 

Procura acordar, com as palavras que es capaz de dizer, o nosso irmão Mariano, pois tenho a impressão de que se tenha adormecido. De fato, alguns vieram me procurar, e entre esses, alguns velhos que pediam esmolas. Interroguei-os sobre o que e de quem tinham recebido algo. E contaram-me minuciosamente o que lhes fora dado durante a viagem e de quais pessoas. Tendo lhes interrogado depois, com inquietação, sobre o que teriam recebido  daquele nosso irmão, responderam-me que haviam se dirigido a ele, mas que nada haviam recebido, nem mesmo o pão para a viagem: o que, naquela igreja, foi sempre costume dar a todos. Contaram-me, de fato, que ele lhes havia respondido: “nada tenho para lhes dar”. E com isso muito me admiro, pois aquele que possui vestes, dinheiro, provisões, não tenha o que deva dar aos pobres.

Dize-lhe, pois, que com a mudança de cargo, deve também ter mudado o seu coração. Que ele não pense que lhe serão suficientes a leitura e a oração, para poder se assentar em lugar distante e não frutifcar com obras. Que ele tenha a mão larga, socorra aqueles que se encontram em necessidade, considere como sua a pobreza dos outros, pois que, se não possui essas qualidades, é em vão que usa o nome de bispo. Por uma carta eu já lhe havia advertido alguma coisa sobre a sua alma, mas nada absolutamente me respondeu; do que concluo que também não se dignou a ler o que lhe escrevi. Por isso não me pareceu necessário que agora eu lhe escresse para aconselhá-lo sobre alguma coisa. Envio-lhe apenas o que o meu conselheiro pôde fazer sobre os negócios terrenos. De fato, não devo me fatigar com o ditado de uma carta, para um homem que não lê. A tua caridade pois, diga-lhe tudo isso em segredo e o advirta sobre o seu comportamento, para que não venha a perder, pela sua presente negligência - o que Deus não permita - a sua vida anterior.”

4) A defesa dos Mosteiros, em face da Igreja e do seu Bispo.

 

Em uma atitude de contínua solicitude e zelo pela autenticidade da vida monástica nos mosteiros, Gregório se manifesta não somente corajoso, mas até mesmo insistente em defender aquelas exigências básicas, sem as quais se põe em perigo a realização da  vida monástica, fiel e autêntica. Em relação a este ponto, Gregório não apenas manifesta a sua firmeza ao escrever, como vimos, aos  abades e aos seus procuradores, mas até mesmo, e de modo bem  especial, ao bispos dos lugares em que se situam os mosteiros.

Gregório não admite que o prórprio bispo ou clérigos de sua igreja, tentados pela facilidade que oferece a presença de sacerdotes nos mosteiros, venham dificultar ou mesmo impedir a vida monástica destes monges sacerdotes, sobrecarregando-os com trabalhos pastorais.

 

Chega também a repreender severamente outros bipos que se utilizavam dos oratórios ou igrejas monásticas para aí celebrarem solenemente as festividades litúrgicas para o povo. Sob este aspecto são bem importantes as cartas de Gregório a Mariano Bispo de Ravena, onde revela não somente o seu amor à vida monástica, mas também  a energia e severidade com que exige dos bispos o respeito às características e exigências prórpias das comunidades monásticas em suas igrejas. Nada melhor do que lermos com atenção as cartas que escreve a Mariano, bispos de Ravena e já nosso conhecido: (VI, 28).

 

 

Gregório a Mariano, bispo de Ravena.

Muito nos admiramos que em tão pouco tempo o discernimento de tua fraternidade tenha se modificado a ponto de não se dar conta do que está a pedir. Com isso nos contristamos, pois nos ofereces um sinal evidente de que  as palavras dos maus conselheiros tiveram mais peso, para ti, do que o progresso na lectio divina. Embora seja necessário que defendas os mosteiros e, sobretudo, reunas alí os religiosos, de modo a ser para o teu proveito a união das almas, tu, ao contrário, como manifesta a tua carta, desejas empenhar-te em lhes dificultar a vida. E o que é pior, te esforças para que nós sejamos participantes da tua culpa, enquanto vós, com o nosso consentimento, sob o pretexto de cuidares dos seus bens e causas, desejas realmente oprimi-los.

Deves lembrar-te de que, na tua presença,  tendo se manifestado muitos presbíteros, diáconos e clérigos teus, contra o testamento do teu predecessor, nós concordamos com o que pediam. Mas, naquela ocasião foi confirmada a  vontade expressa pelo teu predecessor,  em relação ao mosteiro. E agora, parecendo dissimular tudo isso, pede-nos que determinemos o contrário. Sabemos, na verdade, que isto não vem  de ti. Mas, se não renuncias a ouvir aqueles que te sugerem coisas inconvenientes, não somente manchas a tua reputação, mas até a tua alma. Uma vez que muito te amo, exorto com insistência a que ponderes seriamente isto: não  te empenhes mais pelo dinheiro do que pelas alma. Aquele deve ser olhado à distância, por essas, no entanto, é necessário empenhar-te com todas as forças. Dedica-te, com vigilância e solicitude, pois que o nosso Redentor, do ministério do sacerdote não busca o ouro, mas sim as almas.

Além disso, chegou ao nosso conhecimento que os mosteiros sob a autoridade da tua fraternidade, estão sendo oprimidos com diversas importunações e incômodos por parte dos clérigos. Para que isso não mais  aconteça, procura reprimi-los com servera ameaça, de modo que os monges que aí vivem possam livremente alegrar-se nos louvores de Deus”.

 

Gregorio a Mariano bispo de Ravena.

Já há algum tempo, pela informação de muitas pessoas, ficamos sabendo que os mosteiros situados na região de Ravena, são atualmente oprimidos  pelo autoritarismo dos teus clérigos, de modo que sob o pretexto de dirigi-los -  dizê-lo já é grave - eles os mantêm como se os possuissem em  propriedade. Entristecendo-nos não pouco, com isso, enviamos uma carta ao teu predecessor, para que cuidasse de tudo corrigir. Mas, como chegou repentinamente a sua morte, para que um tal peso sobre os mosteiros não continuasse, lembramo-nos de já ter escrito à tua fraternidade. (VI,28). E como somos cientes de que já cessaram tais correções, tomamos as medidas para enviar-lhe novamente esta carta.

Nós te exortamos, pois, removendo  qualquer demora ou qualquer desculpa, a retirar destes mosteiros aquele peso que os oprime, de modo que jamais algum clérigo ou pessoa constituida em  alguma ordem sacra  tenha licença para se dirigir ao mosteiro, a não ser para ai rezar, ou talvez, seja convidado a celebrar os santos mistérios...

Por isto, que a tua santidade, com vigilante cuidado, depois de uma segunda advertência, não adie para mais tarde esta correção, para que, se depois disto ainda fores negligente, o que não acreditamos que aconteça, nos vejamos forçados a garantir de outra maneira, o sossego dos mosteiros”.

 

Nessas epístolas não ficam bem esclarecidas quais sejam as importunidades, gravames e embaraços que os clérigos da diocese de Ravena tenham ocasionado às comunidade dos monges. Gregório apenas se refere a uma atitude de certa prepotência de alguns clérigos, que se comportavam como proprietários dos mosteiros. Mas, se é reservado neste aspecto, Gregório não esconde a sua firme atitude de querer salvar os valores fundamentais da vida monástica, mesmo recorrendo, se necessário, a outras medidas.

 

Seria interessante citar ainda uma pequena  epístola de Gregório ao bispo João, antecessor de Mariano, em Ravena, pois é nesta carta (V,1) que se manifesta pela primeira vez a preocupação de Gregório pela situação de alguns mosteiros que se haviam tornado habitação de clérigos ou até de leigos. E o que é pior, parece que os clerigos desejavam continuar vivendo ali, como se tivessem também o direito de serem considerados monges. A decisão de Gregório é bem clara, bastante enérgica e além disso, define claramente a linha divisória entre a vida dos clérigos e a vida dos monges:

 

Gregorio a João, Bispo de Ravena.

Chegou-me a notícia de que, na Igreja de tua fraternidade, alguns edifícios recentemente consagrados como mosteiros, agora se transformaram em habitações de clérigos ou até de leigos; e assim, aqueles que vivem dentro das igrejas, enquanto fingem viver como religiosos, aspiram a se tornar superiores dos mosteiros, e por sua conduta esses (mosteiros) acabam em ruinas. De fato, ninguem pode atender simultaneamente, com zelo, aos deveres eclesiásticos e perseverar ordinariamente na observância da regra monástica, de modo a manter a rigidez do mosteiro quem deseja permanecer diariamente no serviço eclesiástico.

Assim pois, que tua fraternidade se apresse em eliminar este abuso, onde quer que se tenha verificado; porque de maneira alguma posso suportar que os lugares santos sejam destruidos pela ambição dos clérigos. Por isso, procurai agir de tal modo que o mais depressa possível possais dar-me notícia de ter sido corrigida aquela a situação.”

Em várias outras epístolas Gregório se refere à intromissão de clérigos nos ambientes monásticos: I,40; IV,11; VII,40. Afirma também claramente a incompatibilidade de se viver simultaneamente o serviço sacerdotal em uma igreja e a consagração da vida monástica em um mosteiro. Cf.também a epístola IV,11 onde se lê:

 

“Não permitas que os presbíteros, os diáconos e os outros clérigos que militam nas igrejas se tornem abades de mosteiros, mas, ou sejam promovidos às ordens monásticas, depois de haver abandonado o encargo clerical, ou, se tiverem decidido  perseverar na condição de abade, não lhes seja concedido, de nenhuma maneira,  exercer a função eclesiástica. É de fato bastante ilógico que, enquanto uma única destas incumbências não pode ser perfeitamente realizada, com diligência, pelas suas graves exigências, alguém se julgue idôneo para exercer uma e outra. E assim, reciprocamente, a condição eclesiástica è impedimento  para a   vida monástica, e a regra monástica para os serviços eclesiais”

Em outras epístolas, como aquela para Secundino, bispo de Taormina, menciona claramente qual a importunidade causada ao mosteiro. Trata-se de um batistério que foi colocado na igreja dos monges e que, certamente, com a freqüente administração do batismo pelos  sacerdotes daquela igreja, ou mesmo pelo bispo, tornou-se causa de muitas perturbações e embaraços para a vida da comunidade monástica (III, 56)

 

Gregório a Secundino bipo de Taormina.

Recentemente ordenamos que fosse retirado o batistério do mosteiro de Santo André super Mascalas, devido às pertubações excessivas à vida dos monges, e que fosse colocado um altar, onde antes estivera a fonte. Mas o cumprimento desta determinação, até o presente momento foi sempre procrastinado. Admoestamos pois a tua fraternidade para que, uma vez recebida esta nossa carta, não admita nenhuma demora, mas, coloque um altar para celebrar os santos mistérios, no lugar em que estavam as fontes, sem mais nenhum adiamento. Assim, os referidos monges poderão mais livremente celebrar o opus Dei e o nosso ânimo não será exaltado contra a tua fraternidade, por motivo da tua negligência.”

Pelos exemplos apresentados pode-se perceber como era constante  atitude do Papa em defender os elementos fundamentais e necessários ao exercício da vida monástica, mesmo quando eram ameaçados pelas atitudes dos bipos locais.

 

Em um caso especial, em que Maximiano, bispo de Siracusa, havia excomungado o abade Eusébio, doente e já avançado em anos, em um momento de ira, Gregório não hesita em chamar fortemente a atenção do bispo convidando-o a mostrar-se bondoso, e compreensivo; e já que fora tão duro nos seus sentimentos e castigo, saiba agora também consolá-lo na sua tristeza (II,48).

 

Gregório ao bispo Maximiano.

Lembro-me de vos ter freqüentemente recomendado que não procedesses com precipitação  ao proferir alguma sentença. E agora, eis que fiquei sabendo que vossa fraternidade, tomado de cólera, excomungastes o reverendíssimo abade Eusébio. E com isso muito me admirei, pois nem a sua antiga profissão, nem sua avançada idade, nem sua diuturna  enfermidade puderam afastar da ira o vosso ânimo. Qualquer tenha sido o seu erro, o sofrimento da sua enfermidade deveria ser suficiente como pena. A quem é ferido pela divina disciplina, torna-se supérfluo acrescentar ainda um castigo humano. Mas, talvez vos tenha sido permitido ser mais severo com tal pessoa, para que vos mostrasseis mais cauteloso com as pessoas mais modestas, e vos examinasseis por mais tempo, quando vos dispuzerdes a ferir alguem com uma sentença. Entretanto, já que com tanta cólera provastes este homem, procurai agora igualmente consolá-lo, porque é de fato muito injusto que justamente aqueles que mais vos amaram, vejam-vos agora, sem motivo, ser mais duro para com eles.”

 

Após tão bela exortação ao bispo de Siracusa, para que reconsidere a sua atitude violenta, a ponto de excomungar o idoso abade Eusébio, nada melhor do que ler a epístola enviada pelo Papa ao próprio abade, após ter sabido, e com que surpresa (!),ter ele recusado a  comunhão e reconciliação oferecidas pelo bispo Maximiano, por  ter-se sentindo, talvez, muito ferido  em seu brio e própria dignidade !

 

Gregório retoma novamente a exortação de uma verdadeiro pai, repreendendo agora ao velho abade, de quem tão bem falara em sua carta a Maximiano.Torna-se agora severo e duro, na sua repreensão, e não somente revela todo o seu desaponto com a atitude do abade,  como também condena fortemente o seu orgulho, pois revelou o que ha de pior, no coração do monge: a falta da humildade.(II,30).

 

Gregório ao Abade Eusébio.

Que tua caridade me acredite: muito me entristeci com a tua tristeza, como se eu mesmo houvesse sofrido a injúria em teu lugar. Mas, depois, sabendo que o reverendíssimo e nosso co-irmão no episcopado Maximiano te oferecia a sua graça e comunhão, mas tua caridade se recusara recebe-las. Compreendi então que fora justo o que antes acontecera. A humildade dos servos de Deus deve aparecer no momento da aflição. Aqueles que se levantam contra os superiores, mostram de fato, que desprezam sua condição de servos de Deus. O bispo, certamente, não deveria ter feito o que fez, mas também, tu deverias tudo ter recebido com humildade; e depois, quando ele te restituía o seu favor, deverias ter ido ao seu encontro com ações de graças. Mas, porque assim  não agiste, reconheço que, da nossa parte, restam somente as lágrimas. Não é, de fato, grande coisa ser humilde com  aqueles de quem recebemos honras, pois isto fazem também os seculares; mas nós devemos ser humildes sobretudo com aqueles de quem recebemos ofensas. Diz o Salmista: ‘Vede a minha humildade diante  de meus inimigos.’ Nós, quê vida interior possuimos, se recusamos ser humildes para com nossos pais? Portanto, diletíssimo filho, peço-te que faças desaparecer toda amargura do teu coração; pois pode ser que estaja já perto o fim da nossa vida e o antigo inimigo , pelo pecado da discórdia, consiga interromper o caminho do reino celeste. Ordenei que fossem entregues à tua caridade, por meio do subdiácono Pedro, cem moedas; peço-te que as receba sem ofensa pessoal.”

Com que delicadeza procura Gregório convencer o velho abade Eusébio do erro da sua  atitude. Reconhece a injúria que lhe fora feita, reconhece o erro do bispo Maximiano, mas não pode deixar que o monge, o servo de Deus, se exalte, contra o seu superior e pai, levado pelo aparente direito de se mostrar ofendido, recusando a comunhão e a paz, e abrindo assim lugar ao orgulho, o terrível inimigo de tudo que é cristão.

Gregório não pode admitir, portanto, que um monge possa ter atitudes ditadas pelo orgulho. Manifesta-se falso monge aquele que não sabe ser humilde. Compreende-se assim porque motivo Gregório aconselha a Fortunato, bispo de Nápolis a examinar com atenção o comportamento do Prior Barbaciano. Possui diversas qualidades, diz o Papa, mas ele revela também um vício muito grave (vehemens): “mostra-se muito convencido de sua própria sabedoria !” (valde se esse sapiens videtur). E então renova sua exortação e diretiva: (IX, 12)

 

“Tua santidade o vigie com solicitude sobre ele, e se for cauteloso no governo e se revelar humilde no seu modo de ser, então - assim queira Deus - o eleve à dignidade de abade. Se porém progredir pouco na humildade, adie a sua ordenação e faça-me saber”.

 

Embora breve, não se poderia exprimir melhor do que nesse texto, a semelhança de espírito e de doutrina entre o Papa Gregório e Bento, o Pai dos monges.

 

5) A origem dos privilégios concedidos aos mosteiros.

Temos visto, nas várias epístolas já transcritas,como é constante a preocupação de Gregório em afirmar o valor eclesial do mosteiro e a importância de sua presença para a Igreja onde se encontra. Em vista disso, em muitas de suas cartas Gregório exorta os bispos a que se sintam responsáveis pelo bom testemunho de vida que os mosteiros devem dar, devem permanecer sempre vigilantes para agir, quando nessário, e impedir, logo de início, que algum vício ou desregramento de costumes neles penetre. Um belo exemplo de semelhante  exortação é a epístola (VIII,32) a João, bispo de Scillitano:

 

“Guardando tudo o que foi prometido e observado pelos teus predecessores, que o teu cuidado vigilante se volte para o comportamento e a vida dos monges aí residentes. Se houver quem viva de maneira má ou seja culpado por cometer faltas de imoralidade, procura corrigi-lo por um severo e regular castigo. Assim  pois, se desejamos que a tua fraternidade se abstenha daquelas indevidas usurpações, por outro lado, exortamos a que se mostre sempre solícito em relação à obervância da disciplina e o cuidado com as almas”

 

Igualmente significativa é a epístola a Fortunato, bispo de Nápolis, que é severamente advertido por Gregório por não ter sido solícito e atento para com os monges  do mosteiro do abade Barbaciono e não ter assim evitado a fuga de vários dos seus monges (X,9):

 

“Enquanto tua fraternidade mostra-se pouco solícito para com os mosteiros que lhe estão sujeitos, torna-se culpado por merecer uma repreensão e, além disso, nos entristece com sua indevida brandura.

Além disso, promulgue tua fraternidade com rigor, em todos os mosteiros, que não devem conceder a tonsura (monástica) aos que são recebidos para a conversão, até que completem dois anos de vida monástica na comunidade”.

 

Note-se que na carta de Gregório a Secundino, bispo de Taormina (anteriormente citada) pedia com delicadeza, a cooperação do Bispo, já pela segunda vez, como diz, “sem que nada tivesse sido feito”. Mas, desta nova vez que lhe esccreve, exige pronta obediência à sua ordem e até insinua que seu ânimo poderia tornar-se exaltado contre ele, caso houvesse novamente um outro adiamento.

Já havíamos encontrado também uma outra ameaça de Gregório, ainda que bastante velada, diante da falta de ação de Mariano, bispo de Ravena (VII,40). Dizia Gregório:

“não adie para mais tarde esta correção, para que, se depois disto ainda fores negligente, o que não acreditamos que aconteça, nos vejamos forçados a garantir de outra maneira, o sossego dos mosteiros”

 

Alguns comentadores vêem aqui já uma alusão às concessões de alguns direitos próprios aos mosteiros (privilégios), daquela mesma região de Ravena, que muito haviam sofrido durante o episcopado de alguns antecessores de Mariano. Encontramos assim em (VIII,17) uma das primeiras epístolas de Gregório, datada de abril de 598, dirigida ao próprio Mariano, onde explica as razões porque está concedendo ao mosteiro dos santos João e Estevão, alguns direitos que limitarão, para sempre, a autoridade do bispo local.

 

“Gregório a Mariano, bispo de Ravena.

Como é  necessário prever à tranquilidade dos mosteiros e ocupar-se com a sua perpétua segurança, bem nos informam os anteriores trabalhos que realizastes para a administração do mosteiro. E assim, porque o mosteiro dos santos João e Estevão, situado na cidade de Classe e que é governado pelo nosso filho comum o abade Cláudio, como sabemos, tem sofrido muitos prejuizos e pressões da parte dos vossos predecessores, é necessário que vossa fraternidade tome oportunas medidas para garantir a sua futura tranquilidade. Deste modo aqueles que ali vivem, no serviço de Deus, auxiliados com a sua graça, poderão perseverar com liberdade de ânimo. Mas, para que por meio de algum desses costumes, que mais necessitam ser corrigidos, não volte  alguem, em  qualquer  ocasião, a  ousar ser causa de qualquer embaraço, é necessário que vossa fraternidade se esforce para observar tudo o que mais a baixo procuramos enumerar, de modo que, por esse meio, jamais se possa encontrar motivo para inquietação.

Um documento ainda mais antigo que o anterior, uma epístola de Gregório ao abade Luminoso do Mosteiro de São Tomé em Rimini (V,47), datada de Junho de 595, talvez  seja o primeiro exemplo da concessão de privilégios a um mosteiro. Para livrá-lo de possíveis  ingerências negativas, da parte do bispo do lugar, Gregório restringe a sua autoridade sobre o mosteiro, em determinados assuntos. Estas concessões aos mosteiros serão chamadas, mais tarde, “privilégios de isenção”.

 

Pela sua importância, essa carta merece ser transcrita por inteiro, bem como a seguinte (V,49) onde Gregório comunica ao bispo de Rimini e aos seus sucessores, que deverão respeitar os favores concedidos ao Mosteiro dos  Santos André e  Tomé..

 

“Gregório a Luminoso, abade do Mosteiro de São Tomé de Rimini.

Recebemos de boa vontade o teu pedido e da tua comunidade, dando-lhe execução de  acordo com as tuas preces, segundo os estatutos dos Pais e a norma do direito. Com a nossa determinação enviada a Castório - nosso irmão no episcopado - e aos seus sucessores, nós estamos afastando definitivamente todo poder que causar dano a ti e ao teu mosteiro, de modo que jamais vos seja ocasião de gravame. Não administrará  os bens do mosteiro, nem poderá nele realizar qualquer ação litúrgica pública. Deixamos-lhe (ao bispo) a jurisdição de poder ordenar o novo abade, aquele que tiver sido eleito pelo consenso unânime da comunidade. Organizadas pois estas coisas, sede solícitos no Ofício Divino e entregai-vos com assiduidade à oração, para que se torne manifesto que procurais a tranquilide da alma para a oração e não evitastes o rigor da disciplina episcopal, para uma vida de relaxamento.

Nesta carta Gregório comunica ao abade Luminoso ter atendido os seus pedidos e já ter enviado a Castório, bispo de Rimini, um decreto oficial em que concede ao mosteiro dos santos André e Tomé o privilégio de estar isento do poder episcopal em diversas situações importantes para a salvaguarda do ambiente e do espírito monástico da comunidade.

 

Será importante conhecer ainda o texto daquele mencionado decreto, que se encontra na Epístola V,49.

 

“Gregório a Castório, bispo de Rimini.

Pelo texto da petição, aqui anexo, podemos ver quais os pedidos que o Abade Luminoso, do mosteiro dos santos André e Tomé, da cidade de Rimini, nos dirigiu entre lágrimas. Por este motivo exortamos a tua fraternidade que, por ocasião da morte do abade deste mosteiro, a tua igreja não se intrometa por nenhum motivo, em inventariar ou administrar os bens possuidos ou a adquirir do mesmo mosteiro. Desejamos porém que ordenes, como Abade do mosteiro, somente aqule que seja digno de costumes e idôneo para a disciplina monástica e que a comunidade inteira pedir com geral assentimento. Proibimos ainda de todo modo, que por meio do bispo sejam celebradas alí Missas públicas, a fim de que não haja ocasião alguma para reuniões populares, nos ambientes reservados aos monges, pois a mais freqüente entrada de senhoras, pode ser motivo de escândalo - que tal não aconteça - para aqueles irmãos de ânimo mais simples. Determinamos que este nosso documento seja firme e integralmente observado no futuro, por ti e depois de ti, pelos outros bispos que serão eleitos. E que a tua igreja esteja atenta, com o auxílio de Deus, somente  ao próprio direito, e aquele mosteiro, estando sujeito apenas à  jurisdição canônica e afastadas as perturbações e quaisquer gravames - desempenhe o Ofício Divino com suma devoção do coração. Dada no dia 6 do mês de junho da XIII indição.”

 

Assim como nesse caso do mosteiro dos santos André e Tomé, encontramos ainda outras cartas do Papa que concedem um ou outro destes mesmos privilégios a outros mosteiros, conforme as suas próprias e concretas necessidades.

 

No ano 601 o Papa reuniu em Roma o III Concílio Romano ou Lateranense que, entre outros assuntos, julgou por bem estabelecer a primeira legislação canônica sobre os direitos dos Bispos e o privilégios próprios dos mosteiros, em suas dioceses.

Nesse texto, aparece clara a insistência do Papa em que os mosteiros gozem de certa autonomia a fim de manter a fidelidade da observância monástica através da salvaguarda daquelas exigências básicas ou condições indispensáveis.

 

Significativo é o início deste Documento (PL 77 Epístolas VII Appendice)

 

“Gregório bispo, servo dos servos de Deus, a todos os bispos.

Quão seja necessário procurar a tranquilidade dos mosteiros e ocupar-se com a sua perpétua segurança, nos informa o documento anterior que vos entregamos, sobre o governo do mosteiro.

E como é do nosso conhecimento que, em muitos mosteiros, os monges costumam sofrer prejuizos e pressões da parte dos prelados, é necessário que vossas fraternidades, por uma salutar ordenação, estabeleçam normas visando a futura tranquilidade deles, de modo que vivendo  monasticamente no serviço de Deus, com o auxílio de sua graça, possam perseverar com um coração livre. Etc. 

Conclusão

Poder-se-ia pensar que após a leitura (rápida, ou lenta,  atenta ou meditada ?) dos vários textos das Epístolas de Gregório que julgamos ser mais significativos, pelo seu conteúdo monástico, tenhamos chegado agora ao momento oportuno para apresentar uma síntese do pensamento e da doutrina monástica do Papa.

 

Porém, como já mencionamos na nossa Introdução, devemos reconhecer a impossibilidade de se elaborar uma síntese doutrinal, objetiva e suficientemente completa, uma vez que nos limitamos, exclusivamente, ao estudo da correspondência de Gregório. E nosso estudo, restringiu-se a apenas às epístolas relacionadas com os diversos temas da vida monástica.

 

Gregório permaneceu, por longo tempo, um autor quase desconhecido, apesar da sua enorme influência na Teologia Medieval e sobretudo,  na prática e na experiência espiritual da vida cristã. Chegou a afirmar um autor recente, que  a importância da influência de Gregório “não nos parece tão evidente, porque suas idéias e expressões passaram a fazer parte da doutrina e da linguagem de muitos escritos espirituais e assim , tornaram-se como um patrimônio comum.

Nós ( e a tradição monástica em particular) vivemos sem tomar conhecimento de sua doutrina e de sua experiência e por isso, elas nos parecem algo “normal” e não original”[10].

Se isso aconteceu com os escritos mais importantes de Greório, não devemos nos admirar que apenas nos últimos anos se tenha iniciado a tradução de todo seu Registrum Epistolarum. Conhecer, isto é, ler atentamente as suas cartas, especialmente aquelas relacionadas com os diversos temas da vida monástica é, sem dúvida alguma, um estudo não apenas interessante e bastante original, mas algo essencial ao conhecimento não só da doutrina, mas do próprio autor.

 

Se o estudo das obras doutrinais de Gregório, especialmente dos seus Comentários a livros da Sagrada Escritura, é como um árduo caminho pelo qual se sobe para os altos cumes da Teologia  e da própria doutrina da Experiência mística, os estudo de suas cartas, pode-se dizer, será como uma subida, por outra vertente da montanha, por atalhos pedrogosos, ainda pouco explorados, mas que levarão ao encontro, vivo, pessoal e íntimo com a personalidade do próprio Gregório.

Encontraremos também, sem dúvida alguma, importantes textos doutrinais, mas apresentados agora no contexto de um diálogo vivo (embora escrito) com alguém a quem ele estima, ama e por isso mesmo, em quem confia. Se Gregório, em todos os seus estudos, pensa com o coração, nas suas cartas ele também fala e dialoga com o coração. È evidente que, dessa maneria, ele estará revelando aspectos desconhecidos de sua doutrina e, mais importante ainda, para o essencial conhecimento de sua própria pessoa. Em uma carta, os pensamentos nunca são transmitidos de forma abastrata, mas bem dentro da dimensão emocional afetiva que vai revelar a presença e intensidade dos sentimentos e reações do momento.

 

É por tudo isso que, em lugar de uma síntese doutrinal, julgamos ser oportuno sugerir aos  nossos leitores, certamente interessados em conhecer não sómente o Papa, mas também o monge Gregório, alguns exercícios práticos, para incentivar a leitura e a reflexão comparativa entre os textos.

Pensamos nisso ao lembrar-nos que este estudo, sobre as cartas de Gregório, poderá ser útil, em primeiro lugar, aos  nossos jovens professos e professas, ainda no tempo da formação monástica. Pelo mesmo motivo, julgamos ser também oportuno conservar o texto latino, já que algumas expressões dos seus pensamentos e sentimentos são forçosamente traidas pela tradução. E podem ser entendidas mesmo por aqueles que não dominam o latim.

 

Para os que aceitarem este convite, a uma maior “degustação” dos textos epistolares de Gregõrio, proponho algumas indicações para uma série de “re-leituras” do mesmos. É evidente que melhores sugestões poderiam ser ainda elaboradas pelos respectivos  professore (as).

 

Pesquisas:

 

1. Quais são as idéias, os textos, frases ou palavras que podem relembrar outras semelhantes da Regra de nosso Pai São Bento ?

 

2. Reunindo elementos de diversas cartas, como poderíamos definir (descrever) a vocação do monge, na Igreja ?

 

3. Pela leitura de algumas cartas, temos condições de explicar em que sentido é contemplativa a vida monástica ?

4. Considerando, com atenção, os adjetivos e advérbios com  que   Gregório procura acentuar mais fortemente algumas de  suas idéias, ordens ou conselhos, escolher três valores (ou disciplinas monásticas que os defendem) em ordem decrescente de sua importância.

 

5. Ao aconselhar ou ordenar aos bispos que se abstenham de prejudicar os mosteiros e até, ao contrário, que se sintam responsáveis por eles, em suas próprias Igrejas, qual a fundamentação que apresenta Gregório para isso ? (Razões disciplinares (polêmicas), jurídicas, teológicas ?

a)        Essas razões continuariam válidas também em nossos dias ?

b)       Os monges, por sua vez, são convidados a se sentir responsáveis por sua presença na Igreja em que vivem ?

 

6. Entre as atitudes tomadas por Gregório, em relação aos monges e mosteiros, encontraríamos alguma que possa chocar ou escandalisar a nossa mentalidade de hoje

O que dizer ?

 

 

 

D.Joaquim de Arruda Zamith, osb

Mosteiro de São Bento

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[1]
Texto português traduzido do texto latino do CC 140 e 140A e rev. tradução italiana: Opere di Gregorio Magno, Lettere/I-III; /IV-VII, A cura di Vincenzo Recchia, Città Nuova Editrice, 1996.

 

 

 

[2]
Cf.Justin McCann, Saint Benedict, Sheed and Ward, London, 1979, p.11

 

[3]
cf. Sancti Gregorii Magni Vita, ex eius scriptis adornata. Liber I cap.III. PL 75 c. 255.

 

[4]
“Ces lettres sont d’une qualité humaine et parfois littéraire exceptionelle. Grégoire, intellectuellement, était de taille à tenir tête à tout le monde... Il savait pourtant utiliser la captatio benevolentiae pour amener à ses vues les grands de ce monde ou faire accepter un mot sévère...Quand il s’agissait d’émouvoir des hommes dont on ne pouvait se faire entendre et considérer que pour les biais d’une forme raffinée, Grégoire savait parfois mettre sa plume au service d’un splendide morceau de littérature, et jamais ses écrits administratifs et politiques ne s’écartent de la correcttion de la langue et de la maîtrise du style en usage à cette époque” Robert Gillet, Saint Grégoire le Grand, DS, VI col.880-881

[5]
Opere di Gregorio Magno, Lettere, Iv.p.7

[6]
Sl 118,107 e Sl 68,3

 

[7] Cf.Vita Sancti Gregorii Papae ab Joanne Diacono. Lib II c.12 (PL77)

[8]
Cf. IVDialog. 57 n.11 (SC n. 265 p.190).

[9] Cf. Opera di Gregorio Magno, Lettere, Introduzione p.63

[10]
Lorenzo Sena, La Experiencia de San Gregorio y su influencia sobre la Vida Monastica

 
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