Dom Abade Joaquim Zamith , OSB.

“Monaquismo” oferece-se informações sobre diferentes gêneros e formas de vida monástica que não somente estão hoje aparecendo nas mais diversas regiões da terra, mas que também revelam as suas origens em países como a India, China, Egito e Médio Oriente, até mesmo a 2.500 anos antes da nossa era cristã ... Leia mais

“Percurso da Vida Cristã e Monástica” .Isto se faz necessário para que se possa então discernir também quais as atitudes, as atividades que fazem parte do processo para aquisição de novas e indispensáveis experiências. ... Leia mais

“Mosteiros” apresenta endereços ou links para mosteiros onde podem ser encontrados textos ou atividades particularmente importantes para revelar aspectos autênticos da vida ou doutrina monástica. Também são apresentados fotos ou vídeos desses Mosteiros... ... Leia mais

Testemunhos dos Papas encontramos citações de documentos, alocuções, homilias e conferências em que a pessoa de Bento, a sua Regra ou mesmo o Monaquismo de forma geral, incluindo o testemunho pessoal de grande números de abades e monges são apresentados como importantes valores da tradição histórica, teológica e espiritual da vida religiosa ou da própria Igreja. ... Leia mais

A Visão de Paz na Regra de São Bento

Visão da Paz

na Regra de São Bento -  Testemunhos dos últimos Papas

Conferência na Reunião do EMLA - 2006

Dom Joaquim de Arruda Zamith, OSB

Vinhedo – Brasil

Introdução

 

Com a nossa Conferência iniciam-se os nossos estudos deste décimo Encontro monástico da América Latina que tem por tema: geral: A Paz Beneditina, Dom e Desafio no Contexto da América Latina.

Penso que se poderia iniciar essas reflexões sobre a “A Paz” afirmando que talvez em tempo algum tanto se escreveu e se falou  sobre a paz, como em nossos dias. E no entanto, poder-se-ia  dizer com Jeremias:

– « Paz, Paz », quando não há paz. (Jr 6,14)

 

Falar de Paz nos dias de hoje, marcados cada vez mais pelo prosseguimento de numerosas guerras regionais, supostamente justificadas pelas  exigências de reprimir, eliminar ou pacificar as lutas e atividades terroristas, cada vez mais ampliadas, cada vez mais violentas e até mesmo entre nós, pode parecer um paradoxo ou um terrível desafio.

 

Por outro lado, é justamente nesses momentos em que os homens e as próprias nações parecem estar cada vez mais dominados pelos instintos da violência, da necessidade de vinganças e  represálias, é que cada vez mais fortemente se sente a necessidade de se relembrar os solenes compromissos para a busca da paz mundial,  compromissos esses  assumidos por quase todas as nações, por ocasião da criação da Organização das Nações Unidas. Essa quase unanimidade em querer realizar a paz, era então fruto das terríveis experiências dos anos da  guerra mundial de 39 a 45. É a lembrança deste passado catastrófico e as angustiantes possibilidades de um futuro e mais amedrontador conflito, que torna urgente prosseguir, através de todos os meios possíveis, a falar e a buscar a realização da Paz.

 

A ONU, dentro da sua fragilidade, tem procurado, de muitas maneiras, ser fiel à sua responsabilidade pela paz no mundo. Através do seu Conselho de Segurança, vem insistentemente lembrando, e mesmo exigindo, o cumprimento dos compromissos assumidos buscando os acordos e tratados efetivos pela Paz ou condenando ações bélicas injustas. No entanto, esses esforços perderam muito da sua eficácia, em conseqüência da desobediência e desrespeito aos compromissos menosprezados não poucas vezes. É simplesmente terrível o exemplo de nações que se apresentam como herdeiras de tradições cristãs, e que ousaram desprezar e desobedecer as resoluções mais solenes daquele Conselho de Segurança, levadas por interesses de um nacionalismo egoísta ou ainda por disfarçada  busca dos seus interesses econômicos e das riquezas naturais de países pobres ou emergentes.

 

Dentro deste contexto histórico, que se prolonga já por várias décadas, a Santa Sé, pela voz sobretudo dos Papas, vem, contínua e pacientemente, insistindo na necessidade de se reconhecer que somente a Paz entre as nações poderá evitar as terríveis conseqüências de novos conflitos generalizados. Neste sentido, os últimos Papas, a partir de Paulo VI continuam comemorando o dia 1o. de Janeiro como o Dia Universal de orações e manifestações pela Paz.

 

Relembrando agora o tema da nossa Conferência, pode parecer que falar da Paz a partir da Regra de São Bento e nela procurando os fundamentos de uma doutrina, ou, pelo menos, de uma experiência da Paz, vivida pelo santo legislador na sua comunidade de monges, dentro da situação do mundo atual em que vivemos, repetimos, isto pode parecer uma mera atividade literária ou um esforço até bastante ingênuo.

 

No entanto, mesmo nestes dias e podemos dizer, justamente nessa época de terríveis apreensões de conflitos e guerras futuras, é que inúmeras vozes, tanto de autoridades da Igreja como  de competentes professores e técnicos das ciências históricas e sociais, vêm insistindo sobre a grande e importante presença da tradição evangelizadora e cultural beneditina na Europa. Importância essa não somente referente aos testemunhos de uma rica história passada, desde o início da Idade Média, mas também, e sobretudo, importância de uma atual presença das próprias comunidades monásticas beneditinas, como fontes de uma verdadeira cultura da Paz.

 

Tais afirmações podem parecer estranhas e até pouco aceitáveis para aqueles que, conhecendo pouco da vida beneditina, consideram as suas comunidades e sua forma de vida, como exemplos de atitudes alienadas  e ultrapassadas, perante as urgências pastorais e os valores de um Cristianismo comprometido com o mundo de hoje.

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Diante desse múltiplos testemunhos, tanto os positivos como também os negativos, é que nos pareceu ser oportuno, em nosso trabalho sobre a Paz na Regra de São Bento, não dirigirmos a nossa pesquisa primeiramente para o texto da própria  Regra, mas sim para uma análise de alguns textos-testemunhos onde poderão ser identificados os elementos, características e valores daquela mencionada tradição beneditina, apontada como causa de uma verdadeira e influente cultura da Paz, na história de diversos países da Europa.

E como essa mesma cultura beneditina da Paz é mencionada como um valor também indispensável, para os tempos de hoje, cabe a nós, monjas e monges beneditinos, nos interrogarmos se estamos nós mesmos bastante conscientes  da responsabilidade que pesa sobre nós e se de fato aceitamos os elogios que nos são feitos.

Responsabilidade, primeiramente, por sermos vistos, hoje, como herdeiros e portadores, por assim dizer, oficiais, das riquezas presentes na Regra e na vida dela decorrente, consideradas como fonte de uma verdadeira cultura da Paz. Estamos realmente convictos desta nossa identidade? E podemos ainda acrescentar: convictos também de ser a nossa Regra a fonte desta cultura da Paz ?

Em segundo lugar, também sentimo-nos responsáveis por sermos convidados a viver esta mesma tradição beneditina e sermos, de fato, nos dias de hoje, verdadeiros “construtores da Paz” podendo utilizar, com mais autenticidade, o dístico da “PAX” tão freqüente em locais dos nossos mosteiros?.

 


Alguns Textos-Testemunhos

sobre a ação beneditina - evangelizadora e construtora da Paz

 

1.  Puebla - Um testemunho dos Bispos da América Latina

Embora o nosso primeiro texto-testemunho não seja diretamente do Papa, para nós da América latina ele representa uma das mais significativas orientações eclesiais, com a aprovação do ainda recém eleito João Paulo II e podemos dizer, à sombra do Documento base de toda evangelização da Igreja, a Exortação “Evangelii Nuntiandi” do Papa Paulo VI.

Este texto, talvez lembrado por poucos de nós, manifesta o valor fundamental e prioritário da vida comunitária de uma comunidade como verdadeira ação evangelizadora.  E referindo-se à necessidade dos modelos, na pedagogia da encarnação, refere-se então na nota 101 à excepcional importância, para a vida social na Idade Média, das comunidades monásticas fundadas por São Bento.

Diz assim o Texto de Puebla :

“A Igreja evangeliza, em primeiro lugar, mediante o testemunho global de sua vida. Assim, na fidelidade à sua condição de sacramento, trata de ser mais e mais um sinal transparente ou modelo vivo da comunhão de amor em Cristo que anuncia a se esforça por realizar. A pedagogia da encarnação nos ensina que os homens necessitam de modelos preclaros que os guiem. Nota (101) “Diz-se que o fato de maior relevância política da Idade Média,foi a fundação dos monges beneditinos, porque sua forma de vida comunitária transformou-se no grande modelo de organização social da Europa nascente”.

Cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por constituir para o Continente um exemplo de modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organização e estruturas de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade, e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radical comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente voltando-se contra o próprio homem”.

2o.   Testemunho recente de Bento XVI

a)       Primeira audiência geral de Bento XVI após a sua eleição a 27 de abril de 2005.

Embora não se refira propriamente à obra da paz, já nesta primeira alocução aos fieis reunidos para o Ângelus, o novo Papa explica a razão da escolha do  nome do seu patrono, referindo-se à sua influência na obra civilizadora em muitos paises da Europa:

 

“Quis chamar-me Bento XVI para unir-me idealmente com o venerado pontífice Bento XV, que guiou a Igreja em um período difícil por causa do primeiro conflito mundial. Foi autêntico profeta de paz e trabalhou com grande valentia para evitar o drama da guerra e depois para limitar suas nefastas conseqüências. Seguindo suas marcas, desejo pôr meu ministério ao serviço da reconciliação e harmonia entre os homens e os povos, com o profundo convencimento de que o grande bem da paz é sobretudo um dom de Deus, frágil e precioso, que temos de invocar, defender e construir todos os dias com a colaboração de todos.

O nome Bento evoca, também, a extraordinária figura do grande «patriarca do monaquismo ocidental», São Bento de Nursia, patrono da Europa junto com os santos Cirilo e Metódio. A progressiva expansão da Ordem beneditina por ele fundada exerceu um influxo enorme na difusão do cristianismo em todo o continente. Por isso, São Bento é sumamente venerado na Alemanha e, em particular, na Baviera, minha terra de origem; constitui um ponto fundamental de referência para a unidade da Europa e uma forte recordação das irrenunciáveis raízes cristãs de sua cultura e de sua civilização.

 

Deste pai do monaquismo ocidental conhecemos o conselho deixado aos monges em sua «Regra»: «não antepor nada ao amor de Cristo» (capítulo 4). Ao início de meu serviço como sucessor de Pedro, peço a São Bento que nos ajude a manter com firmeza Cristo no centro de nossa existência. Que em nossos pensamentos e em todas nossas atividades sempre esteja no primeiro lugar!

 

b) A mensagem de Paz, para o dia  1o.de janeiro de 2006

Esses mesmos motivos são novamente mencionados no importante documento de Bento XVI em sua mensagem de Paz, acrescidos agora de uma explícita menção de São Bento como “patrono da Europa e inspirador de uma civilização pacificadora”.

“É na esteira deste nobilíssimo ensinamento (dos seus antecessores) que se coloca a minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz: através dela, desejo uma vez mais reiterar a firme vontade da Santa Sé de continuar a servir a causa da paz. O próprio nome — Bento — que escolhi no dia da eleição para a Cátedra de Pedro, pretende indicar o meu convicto empenho a favor da paz. De fato, com ele quis fazer alusão seja ao Santo Patrono da Europa, inspirador de uma civilização pacificadora no Continente inteiro, seja ao Papa Bento XV, que condenou a I Guerra Mundial como um « inútil massacre » empenhando-se para que fossem reconhecidas por todos as razões superiores da paz.”

Fazendo menção de São Bento como inspirador de uma civilização pacificadora e referindo-se ao Papa Bento XV, talvez o Papa atual Bento XVI desconhecesse as palavras com que o próprio Bento XV explicava, por sua vez, de modo até bem semelhante, por que motivo escolhera São Bento como patrono do seu Pontificado.

Em 1914, teve início a então chamada Grande Guerra. A 21 de setembro do mesmo ano, ao receber em audiência o Abade Primaz dom Fidelis von Stotzingen, Bento XV lhe disse:

“Com a guerra que acaba de iniciar-se está começando um tempo novo. O mundo em que nascemos está por terminar. Virá um novo e total reacerto político, econômico, filosófico; uma ruptura análoga à da época de  São Bento, quando  da ruína do mundo antigo nasceu a Idade Média cristã. Por esse motivo, no ofício de Papa, adotei o nome de Bento para poder orientar o novo tempo que se inicia, do mesmo modo que São Bento orientou para Deus os albores da Idade Média”.

(Cf. Benedictina 1 (1947)5. e Garcia M. Colombás, La Tradición Benedictina. Ed. Monte Casino, Zamora, 2001.Tomo noveno. El siglo XX p.29).

 

Não deixa de ser bastante significativa esta coincidência entre os dois últimos Papas com o nome de Bento, que justificaram  com palavras até bem semelhantes a escolha do mesmo Patrono para os seus Pontificados.

 

 

3.O extraordinário testemunho de Paulo VI

 

Se as palavras de Bento XVI já foram tão significativas para o reconhecimento de Bento como inspirador da Paz no continente europeu, com maior clareza e, poderíamos dizer, com admiração e profundidade, encontramos as mesmas afirmações em diversos documentos do Papa Paulo VI. Dentre esses, escolheremos três que julgamos ser bastante significativos.

a) Paulo VI – 1°. Documento. O principal, sem dúvida alguma, é o seu Discurso após a cerimônia da Consagração da Igreja de Montecassino no dia 24 de Outubro de 1964. Assim se expressava o Papa Paulo VI, unindo de modo tão belo a figura de Bento ao tema da Paz:

 

“Que saudação vos dirigiremos Nós, senão aquela habitual à piedade cristã: “Pax huic domui, et omnibus habitantibus in ea” – paz a esta casa e a todos que nela se encontram.

Encontramos aqui a paz..., aqui trazemos a paz como ótimo dom do nosso ministério apostólico. Aqui celebramos a paz, como luz ressurgida, depois que o turbilhão da guerra extinguira a chama pia e benéfica.

Para vós, filhos de São Bento, que de tão elevado e suave nome fazeis o emblema de vossos mosteiros, o escreveis nas paredes de vossas celas e ao longo de vossos claustros, mas, melhor ainda, o imprimis como lei suave e forte em vossos ânimos e o deixais transparecer como sublime estilo espiritual na elegante gravidade dos vossos gestos e das vossas pessoas.

“Bem-aventurados os pacíficos” disse Cristo, Senhor nosso, “porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).Bem-aventurados os obreiros da paz.

 

Assim celebramos a paz.  Queremos como que, simbolicamente, assinalar aqui o epílogo da guerra, queira Deus, de todas as guerras! Queremos transformar aqui “as espadas em arados e as lanças em foices” (Is 2,4); isto é, as imensa energias empregadas nas armas mortíferas e destruidoras, devolver à vivificação e à construção: e para chegar a tanto, queremos regenerar aqui no perdão a fraternidade dos homens, abdicar aqui a mentalidade que, no ódio, no orgulho e na inveja, prepara a guerra, e substituí-la com o propósito e a esperança da concórdia e da colaboração; desposar com a paz cristã a liberdade e o amor. A lâmpada da fraternidade tenha sempre em Montecassino sua chama pia e ardente.

 

Vida Monástica e Mundo Moderno

 

E aqui, Irmãos e Filhos, o Nosso discurso deveria tornar-se apologia do ideal beneditino. Mas queremos bem supor que quantos nos cercam já estão informados da sabedoria que anima a vida beneditina, e que aqueles que a professam conhecem a fundo suas íntimas riquezas e alimentam em si mesmos as severas  e gentis virtudes da mesma vida. Nós mesmo dela fizemos objeto de longas reflexões; mas parece-Nos supérfluo e quase presunçoso falar agora  a respeito. Que outros discorram e revelem o encantador segredo de semelhante gênero de vida, aqui sempre sobrevivente e florescente.

A Nós é dado agora outro testemunho prestar, que não o referente à índole da vida monástica, e o exprimimos num simples enunciado: a Igreja necessita ainda hoje desta forma de vida religiosa; o mundo ainda hoje dela tem necessidade. Dispensamos-nos de fornecer as provas, que de resto cada um vê brotar por si da Nossa única afirmação: sim, a Igreja e o mundo, por diferentes mas convergentes razões, têm necessidade de que São Bento saia da comunidade eclesial e social e se rodeie do seu recinto de solidão e de silencio e daí nos faça ouvir o encantador acento de sua pacata e absorta prece, daí como que nos acaricie e nos chame ao limiar de seus claustros, para oferecer-nos o quadro de uma oficina do “serviço divino”, de uma pequena sociedade ideal, onde finalmente reina o amor, a obediência, a inocência, a liberdade das coisas e a arte de bem usar delas, a superioridade do espírito, a paz, numa palavra o Evangelho. São Bento volte para ajudar-nos a recuperar a vida pessoal; aquela vida pessoal da qual hoje temos desejo e ânsia, e que o progresso da  vida moderna, à qual se deve o desejo exagerado de sermos nós mesmos, sufoca enquanto o desperta, frustra enquanto o torna consciente. E é esta sede de verdadeira vida pessoal que conserva ao ideal monástico a sua atualidade.

 

A Recuperação do Homem

 

Hoje, não a carência da convivência social impele ao mesmo refúgio, mas a exuberância. A excitação, o barulho, a ansiedade, a exterioridade, a multidão, ameaçam a interioridade do homem; falta-lhe o silêncio com a sua genuína palavra interior, falta-lhe a ordem; falta-lhe a oração, falta-lhe a paz, falta-lhe ele mesmo. Para reaver o domínio e gozo espiritual de si, ele tem necessidade de voltar de novo ao claustro beneditino.

E, o homem recuperado para si mesmo pela disciplina monástica, é recuperado para a Igreja. O monge tem um posto de escol no Corpo Místico de Cristo, uma função tanto mais providencial e urgente.,

Nada diremos agora a respeito da função que o monge, o homem recuperado para si mesmo, pode ter, não só em relação à Igreja - como dizíamos -, mas também ao mundo; ao próprio mundo por ele abandonado, e ao qual permanece unido pelas novas relações, que seu próprio afastamento com ele produz: de contraste, de admiração, de exemplo, de possível confidência e secreta conversação, de fraterna complementaridade. Digamos somente que esta complementaridade existe, e assume uma importância tanto maior quanto maior é a necessidade que tem o mundo dos valores conservados no mosteiro, e vê não a ele roubados, mas para ele conservados, a ele apresentados e oferecidos.

 

Fé e Unidade

 

Vós, beneditinos, o sabeis da vossa historia especialmente e o mundo o sabe, quando quiser recordar-se do que vos deve, do que de vós ainda hoje pode ter.

O fato é tão grande e importante que toca a existência e a consistência dessa nossa velha e sempre vital sociedade, mas hoje tão necessitada de haurir linfa nova nas raízes, das quais recebeu vigor e esplendor, as raízes cristãs, que São Bento lhe deu e alimentou com o seu espírito em tão grande parte. E é um fato tão belo que merece recordação, culto e confiança. Não que se deva pensar numa nova Idade Média caracterizada pela atividade dominante da Abadia beneditina; presentemente bem diferente aspecto dão à nossa sociedade os seus centros culturais, industriais, sociais e esportivos; mas por dois motivos que fazem desejar hoje ainda a austera e suave presença de São Bento entre nós: pela fé que ele e sua Ordem pregaram na família dos povos, especialmente naquela chamada Europa; a fé cristã, a religião da nossa civilização, a da Santa Igreja, mãe e mestra das nações; e pela unidade, para a qual o grande monge, solitário e social, nos educou irmãos, e pela qual a Europa tornou-se cristandade.

Fé e unidade: que coisa de melhor podemos desejar e invocar para o mundo inteiro, e de modo particular para a conspícua e eleita porção, que, repetimos, se chama Europa? Que coisa de mais moderno e de mais urgente? E que coisa mais difícil e oposta? Que coisa mais necessária e mais útil para a paz?

E, para que aos homens de hoje, àqueles que podem agir e àqueles que só podem desejar, seja enfim, tangível e sagrado o ideal da unidade espiritual da Europa, e não falte o auxílio do alto para realizá-lo em organizações práticas e oportunas, para tal escopo quisemos proclamar São Bento Padroeiro e protetor da Europa”

 

b)       Paulo VI - 2o. Documento

Não poderíamos deixar de apresentar agora alguns parágrafos do documento do Papa Paulo VI, o belíssimo texto da  Carta Apostólica declarando São Bento Patrono Principal da Europa

 

“Com muita razão louva-se São Bento como missionário da paz, formador da unidade, mestre da cultura e principalmente como grande promotor da vida cristã e organizador da vida monástica ocidental. Pois nos tempos em que o império Romano se precipitava em sua ruína, desgastado pelo seu envelhecimento, quando algumas nações da Europa encontravam-se envoltas em trevas, enquanto outras gozavam de uma situação mais privilegiada e dos bens espirituais, o santo com ingente esforço de sua incansável virtude, conseguiu que no mesmo  continente brilhasse uma nova aurora.

Servindo-se da cruz, dos escritos e do arado, e especialmente por si mesmo e pelos filhos, trouxe a civilização cristã para os povos que habitavam desde o mar Mediterrâneo até as regiões escandinavas e desde a Irlanda até as terras da Polônia.

Por meio da cruz, isto é, pela lei de Jesus Cristo reafirmou e aumentou os bons costumes na vida pública e privada. É oportuno ainda recordar que por meio do “Opus Dei”, isto é, por sua maneira pessoal e assídua de rezar, ensinou que o culto divino era de grande importância para a sociedade humana. Desse modo formou a unidade espiritual da Europa, pela qual criou o sentimento de um único Povo de Deus em nações diferentes, pela língua, pela raça e pela própria maneira de ser.

Esta unidade, com o decidido apoio de seus monges, discípulos da escola de um tão grande Pai, converteu-se na característica própria do que hoje chamamos “Idade Média”. Unidade que , como diz Santo Agostinho, é “a alma de toda beleza” e que desgarrada mais tarde pelas vicissitudes dos tempos, se esforçam para reunir novamente, em nossos dias, quantos se manifestam com boa vontade.

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c) Paulo VI -         3o. Documento

Alocução do Papa Paulo VI ao Congresso dos Abades da Confederação Beneditina  - 30 de setembro de 1966

“Missão apostólica da oração e vida ascética

Na verdade, com razão se reconhece que a vossa missão apostólica, não nasce unicamente de algumas das obras específicas da vossa vocação, mas que se referem ao serviço pastoral ou à cultura. Agrada-nos recordar, de modo especial, o lema tão extraordinário “Ora e labora” dos monges beneditinos, assim como os colégios e missões confiadas à vossa direção. A vossa missão apostólica nasce sobretudo daquelas obras para as quais e primordialmente vós vos consagrais: a oração e a prática da vida ascética.

Realmente, em um mundo como o nosso, que desconhece a Deus e que está separado de Deus, que despreza a Deus ou que chega a negar a sua existência, vós, vivendo na obscuridade uma vida cheia de paz, permaneceis firmes em vossos mosteiros  cheios de austeridade por um lado, mas por outro lado, por vossa urbanidade atraís os homens como por uma espécie de sagrada e oculta fascinação.

Vós vos apoiais em vossa Regra, onde se lê: “Cremos que Deus está presente em toda parte”. E assim, vossa presença torna-se como um sinal indicador da presença de Deus entre os homens.

“Cantais – quem vos escuta? Celebrais os ritos sagrados – quem vos dá atenção?

Parece que não sois bem compreendidos, nem estimados pelos homens  que julgam ser causa de depressão a solidão de vossa vida

Porém, isto não é verdade. Há também quem reconheça que acendestes um fogo. Há quem compreenda que de vossos claustros se irradia luz e calor. Há quem se detenha, olhe e medite. Vós dirigis para o alto o pensamento dos homens deste tempo. Vós os introduzis, por uma iniciação, na prática da meditação, que freqüentemente os conduz à salvação ou a recuperar novas forças.

Porém, tudo isso podereis fazer sob uma única condição, a saber: que vossa vida, enquanto vida monástica, seja perfeita em todos os seus aspectos. Perfeita no modo de vivê-la segundo determina, com prudência, a vossa antiga Regra delineada por São Bento. Perfeita pela presença das virtudes morais e especialmente aquela da gravidade (como em Dom Herwegen); perfeita na bondade de ânimo (como o foi Dom Riyeland), nota essa que parece ser a característica do vosso Legislador, austero e ao mesmo tempo humano; perfeita sobretudo em cultivar a piedade religiosa (como em Dom Marmion) que tanto repetia preferir o amor de Cristo a qualquer outra coisa, como está escrito aliás, em vossa Regra: “Nada antepor ao amor de Cristo”. Finalmente, perfeita em vossa fidelidade à santa Igreja (tal como vivia o muito amado Cardeal Schuster).

4o.  Texto testemunho: Após os textos-testemunhos dos últimos Papas não poderíamos deixar de citar ainda um testemunho de um leigo historiador, fundador de uma pequena comunidade de jovens cristãos idealistas que se reuniram para procurar viver o Evangelho com autenticidade e discernindo juntos as prioridades do Reino na comunidade Eclesial nos tempos atuais. Hoje, esta Comunidade encontra-se presente em centenas de países de todo o mundo e com dezenas de milhares participantes. São convocados pelos próprios Governos para serem instrumentos de diálogo e realizadores da Paz entre nações e entre grupos ou facções em lutas ideológicas ou guerras civis.

Andréa Riccardi, da Comunidade de Santo Egídio (Roma), assim comenta a escolha do patrocínio de São Bento. (L’Osservatore Romano (30/04/05) ou Presença de Singeverga, n.71, p.6-8 )

 

“O nome de Bento não deixa de remeter, antes de tudo, para o grande regulador do monaquismo ocidental, personagem de contornos históricos esvaecidos, mas grande referencia para o monaquismo, para a história da Igreja e da civilização européia. Em tempos de grandes crises (as invasões bárbaras das que fala também Gregório Magno, biógrafo de Bento), os filhos e filhas deste santo constituíram comunidades cristãs que tomaram a sério o Evangelho e a sua radicalidade e tinham o coração na liturgia. O movimento beneditino realizou um movimento de comunidades cristãs que eram autênticas e que, por esta razão, se tornaram ilhas de humanidade num mundo difícil, o qual humanizaram, e criaram uma  comunhão profunda, a partir da fé, entre os diferentes povos europeus.

 

O nome de Bento na história da Europa e da Igreja mostra a profundidade do traço impresso na história de um autêntico cristianismo vivido, não sem conseqüência para a sociedade, antes, cristianismo que foi criador de cultura e civilização. O santo de Núrcia, “conscientemente ignorante  e sabiamente inculto” segundo Gregório Magno, representou a referência para o processo de elaboração da Regula Benedicti, o texto normativo, entremeado de Sagrada Escritura, experiência e sabedoria monástica, que formou autênticas comunidades de monges ao longo dos séculos. Foi a “fortíssima espécie de cenobitas” – como diz a Regula no primeiro parágrafo – que sendo cristãos e monges, construíram uma nervura decisiva para a Europa. Foram estes “grandes” crentes que nasceram de uma comunidade, pequena ou grande, mas que tem a sua fonte na liturgia assim Bento como Abraão, tornou-se pai de muitos povos – disse recentemente o cardeal Ratzinger

 

Conclusão: Esta síntese de alguns textos dos  Papas que mais claramente se referiram à Paz de São Bento, sempre presente nos mosteiros beneditinos, embora seja deveras objetiva e comprobatória de uma verdadeira tradição de Paz do monaquismo beneditino, não coloca um ponto final, ao contrário, ela mesma traz consigo uma exigente interrogação a nós beneditinos de hoje. Penso até serem duas as interrogações às quais deveremos nos esforçar para responder.

 

Primeiramente, assim somos questionados: Se cremos serem verdadeiras tantas e tão belas declarações dos nossos Pastores,  podemos estar realmente seguros de que nós todos, monjas e monges beneditinos de hoje, estamos sendo fieis a esta missão de evangelização da Paz, que tanto se espera de nós, em todas as formas do nosso modo atual de viver monástico ?

 

A segunda interrogação, intimamente relacionada com a primeira, assim pode ser expressa; considerando a nossa própria experiência pessoal e  comunitária, vivida concretamente em nosso mosteiros, sob quais critérios  ou sob quais valores poderemos nós nos apoiar para chegar a um discernimento que nos permite julgar se realmente as nossas comunidades continuam sendo uma Escola do Serviço do Senhor e portanto, formadoras de mensageiros da Paz de Cristo?

A busca de respostas para a nossa primeira interrogação nos forçará, sem dúvida a aprofundar o significado, sentido, e se assim podemos dizer, a identidade desta verdadeira Paz que tanto os Papas esperam de nós. Se nós mesmos não estamos seguros sobre a realidade daquela Paz que São Bento deseja estar presente na comunidade, dizendo, por exemplo: “e assim estarão todos em paz” (RB 34,5); ou melhor ainda, quando se refere à vocação do monge como aquele que busca a paz:

Prol 14-17 – “E procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Se, ouvindo, responderes: “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a”.

Como poderemos trabalhar e nos esforçar para que possamos juntos construir e viver esta Paz beneditina?

Além disso, se falamos de Paz beneditina, Paz de São Bento, não deveríamos buscar primeiramente qual seja o significado e o conteúdo próprio da Paz que Cristo veio trazer ao mundo e levando à sua perfeição a Shalon do Antigo Testamento?

Pensamos que não se trata de apresentar aqui uma exposição bíblica exegética do conceito da Paz. Inúmeros Dicionários e Vocabulários bíblicos já o fizeram. Pensamos ser mais condizente com a nossa exposição relembrar simplesmente alguns traços mais importantes da experiência da revelação progressiva da Paz, dentro da história do próprio povo de Deus no Antigo Testamento e nos documentos do Novo Testamento.

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As raízes bíblicas da Paz

Tendo recolhido tantos e tão significativos testemunhos sobre a realidade histórica da ação evangelizadora de Bento, através dos seus filhos e filhas, educados pela sua Regra e pela própria experiência monástica transmitida através dos séculos, somos levados a reconhecer ser a Paz, ao mesmo tempo fruto e causa desta ação evangelizadora. Esta paz pode ser chamada de “beneditina”, uma vez que aparece na Regra de nosso santo Pai como mistério, isto é, dom de amor do Pai e realização em Cristo de todas as promessas messiânicas. Esta paz, que é a própria paz de Cristo e do seu reino diferencia-se daquela outra paz que é fruto da ação dos homens e parte integrante da suas esperanças para a construção de qualquer sociedade humana ideal.

A pax beneditina, que é a paz de Cristo, antes de projeto e práxis de uma ação humana, por mais necessária que ela seja, é dom de Deus, é fruto do amor da Aliança, como resposta de Deus ao grito de um povo sofredor e escravo.

.         Pode-se dizer que todo o Antigo Testamento nos revela a profundidade deste grito que brota dos lábios e do coração dos homens. Todos a buscam, mesmo ignorando qual seja a paz verdadeira, pois são numerosos os falsos profetas, os que anunciam  caminhos mentirosos para uma falsa paz.

 

Mas a esperança que nasceu no coração do primeiro homem pecador, ao ouvir a promessa de uma futura pacificação, permanece cada vez mais forte, à medida que a misericórdia de Deus a vai renovando, com novas e misteriosas promessas.

Com o decorrer dos tempos e através dos meandros misteriosos da história, um povo quase perdido no meio de uma natureza violenta e das terríveis agressões dos seus vizinhos, este povo vai lentamente tomando  consciência de ter sido chamado, escolhido pelo seu Deus para ser objeto dos seus favores, de uma vida sem privações, sem temores, sem injustiças, e sobretudo sem guerras.

 

Este futuro de tranqüilidade, e que vai ser desejado como “paz”, vai sendo esperado como obra de um enviado santo de Deus, o verdadeiro Pacificador e por isso mesmo, o Esperado.  O anseio por esta paz, assim prometida, suscitou então a esperança firme e segura por uma paz definitiva : a Paz messiânica

(Ez 34,25-26).“Eu concluirei com eles um tratado de paz; suprimirei as feras de sua terra, de sorte que possam habitar o deserto com segurança e dormir nos bosques.

26. Farei deles e das imediações de minha colina uma bênção; farei cair chuva em tempo oportuno: serão chuvas de bênção”.

 

Ela não será fruto da ação engenhosa dos homens, que jamais conseguiram realizá-la, mas dom do Altíssimo, do Deus que se apresenta ele mesmo como Paz. E ela será obra do seu Enviado, o Príncipe da Paz (Is 9,5): "porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz".

 

Jesus se apresentará como o portador desta Paz, Paz para o mundo, Paz para os homens, pois o seu Reino, que com ele se faz presente, é o Reino da Paz, Ele a concede gratuitamente a todos dispostos a acolhê-la. Não será como a paz do “mundo”, mas aquela que é particularmente sua, isto é, algo que faz parte de sua própria vida.

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!" (Jo 14,27).

 

Esse foi o dom que o Cristo deixou aos seus discípulos, justamente ao terminar as suas palavras de despedida na última ceia: “Isto vos disse para terdes paz em mim”. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

 

Mas o dom da Paz não pode ser concedido a qualquer um. Se é um dom gratuito do amor do Pai e do Filho, ele o próprio dom do Espírito de Amor só pode entrar nos corações que aceitam ser purificados dos vícios que aprisionam e dividem os homens: o orgulho, a vaidade, a auto-suficiência, a inveja, a mentira, a falsidade, a injustiça. Tudo que impede ou destrói a paz.

 

A Escritura, tanto o Antigo como o Novo Testamento nos certificam de que os dons de Deus, embora sendo gratuitos, fazem parte do pacto de Aliança, através do qual Deus se revela e promete comunicar aos homens o seu amor (a sua vida). Mas aliança exige sempre uma reciprocidade no amor. Se há reconhecimento do que é prometido como dom, deve haver também uma resposta, expressão deste reconhecimento na forma de fidelidade ou obediência às exigências  das promessas (os “mandamentos” do amor). Desta forma, o ato de receber, de acolher  o dom do amor divino é também um ato de obediência que só pode ser  verdadeiro enquanto expressão do amor  à pessoa do Doador. E como fruto desta divina e humana reciprocidade, bem característica do mistério da Aliança, tornam-se presentes dos dons divinos objeto das promessas.

 

É pois com muita razão que a revelação do AT identifica este relacionamento de amor entre Deus e os homens, como uma Aliança de Paz (Ez 37,26: Concluirei com eles uma aliança de paz, a qual será uma aliança eterna).

"Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais meu amor te abandonará e jamais meu pacto de paz vacilará, diz o Senhor que se compadeceu de ti". (Is 54,10)

"Josué concedeu-lhes a paz e fez com eles uma aliança que lhes assegurava a vida, e os principais da assembléia confirmaram-na com juramento". (Js 9,15)

 

Mas este  acolhimento supõe a exclusão de tudo o que fecha o coração do homem, como foi dito acima, para que possa também exprimir o dom, a gratuidade da própria entrega de si. Misteriosa mas admirável reciprocidade de uma aliança de amor.

Conhecendo bem tudo o que trazemos dentro de nós e que se constitui freqüentemente como um indesejado mas poderoso  motivador do nosso agir, desejando sinceramente a paz e o que a constrói, tudo o que é bom e verdadeiro, como afirma o apóstolo são Paulo, muitas vezes acabamos fazendo o que não queremos: recusamos a paz(Rom 7,15 "Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço". (Rm 7,15).

 

Torna-se então exigência da nossa verdade reconhecer que podemos  por em perigo, esvaziar e anular este dom da paz, que nos é concedido, como foi dito:  “ah se neste dia conhecesses a mensagem de paz! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos. Pois dias virão sobre ti e os teus inimigos te cercarão com trincheiras, te rodearão e te apertarão por todos os lados. Deitarão por terra a ti e a teus filhos no meio de ti, e não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada!” (Lc 19, 41-44)

Por isso devemos dizer,  com coração contrito:

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende misericórdia de nós;

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz.

Viver esta paz, torná-la presente entre nós, anunciá-la aos que a desconhecem, é a exigência fundamental da fidelidade dos discípulos de Cristo.

"Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós". (Jo 20,21)

“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “Paz a esta casa”. E se lá houver um filho de paz, a vossa paz repousará sobre ele; senão, voltará a vós” (Lc 10, 3-6)

“Vivei em paz uns com os outros” (Mc 9,50);

“Bem aventurados os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus”(Mt 5,9)

 

Vemos assim que anunciar a Paz é anunciar a chegada do Reino Messiânico, como diz o próprio Cristo: “O Reino de Deus está entre vós”.

A missão de evangelizar, anunciar Jesus e sua obra, anunciar a chegada do Reino sempre foi entendida pela Igreja também como o anúncio e a necessidade de se construir a comunidade cristã como uma comunidade da Paz.

Aspectos da Paz no Novo Testamento

Pode-se afirmar, segundo comum interpretação exegética, que o significado central e mais comum do termo “eirene’” no NT é aquele que o relaciona com o dom total, definitivo e supremo do que Deus concede aos homens através de Jesus Cristo. Em razão disto Deus e Jesus Cristo aparecem nomeados com expressões semelhantes “o Deus da paz” (Rm 15,33; Nm 13,20) “o Senhor da paz” (2Ts 3,14). Mais propriamente ainda se diz de Cristo, com certa referência a Mq 5,4: “Ele, de fato, é a nossa paz” (Ef 2,14) e no mesmo contexto será chamado “aquele que opera ou realiza a paz” ou ainda que “ele evangelizou a paz” (Ef 2,15.17).

 

A paz força e poder de Deus

Os  textos citados são suficientes para revelar o caráter por assim dizer de “plenitude” da paz em  todo o NT, isto é: esta não se situa em nível político, ou exterior. Neste nível até se afirma que a luta prossegue com o tempo (Mt 10,34). Cristo nos assegura que a “sua paz” não afasta a tribulação que os seus encontrarão no mundo. Mas somente n’Ele encontrarão a paz (Jo 16,33). Paz esta que dá a certeza da salvação perfeita e que não se encontrará “no mundo”, sendo capaz de unir o céu e a terra ( 2,14; 19,38).

Pronunciada por Jesus a palavra paz se reveste ainda de um significado de extraordinária eficácia, na própria saudação: “ide em paz” (à mulher curada Mc 5,24); à pecadora (Lc 7,50) e aos discípulos após a ressurreição (Lc 24,36; Jo 20,19.26). É importante notar que a mesma força de anúncio e de comunicação da salvação se encontra na idêntica saudação com que os discípulos imitam Jesus em seus ministérios (Mt 10,13; Lc 10,5-6). Não se trata de um simples desejo ou cumprimento social, mas, na verdade, da proclamação e oferecimento dos bens relacionados com a paz messiânica. Para Jesus esta paz é algo tão objetivo e concreto que irá permanecer naqueles dispostos a acolhê-la; e, ao contrário, ela “voltará” para o discípulo, caso seja recusada (Mt 10,3; Lc 10,5-6).

Esta paz evangélica é “a paz que ultrapassa todo entendimento” e que “cuidará dos corações e das mentes dos fieis, “conservando-os em Cristo” (Fl 4,4). Essa paz, segundo São Paulo, está associada significativamente à própria “vida”, enquanto é salvação realizada, que afasta  a “morte” (Rm 8,6). Essa vida provém do Espírito, como está afirmado nas conclusões de diversas cartas.

 

A eficiência dinâmica e vital desta paz que também é graça poderosa de Deus, através de Cristo, se manifesta como destruição do pecado e comunicação da “justiça” de Deus. Esta justificação coloca o homem em estado de “paz com Deus mediante o Senhor Jesus Cristo” (Rm 5,1). Não se trata, aqui também, de uma situação estática, mas de energia espiritual comunicando-se em uma progressão de dom e de vida, da fé à esperança e à caridade, através do Espírito Santo que foi dado”(Rm 5,5).

 

Outra dimensão dinâmica da paz no NT aparece no processo da reconciliação. Assim como a obra destruidora do pecado não somente alterava a relação dos homens com Deus, mas também as suas relações mútuas, (de um para com os outros), assim também a remoção do pecado não apenas reconcilia os homens com Deus, mas também, pela obra de Cristo, reconcilia os homens entre si, dando-lhes “a paz com Deus e paz com os homens”, formando “um único novo homem” (Rm 5,10; 2Co 5,18; Ef 2,11-18; Cl 1,20-22).

Mas, não se pode esquecer, relembrando a dimensão da Aliança estendida à toda obra da Salvação, que o mistério da reconciliação, confiado aos discípulos, supõe sempre a colaboração, ou seja, a correspondência daqueles que devem ser reconciliados (2Co 5,18-20); quer seja em relação a Deus como em relação à comunidade. E esta obra deve perdurar através daquela atitude que também é impulso dinâmico e que São Paulo chama “solicitude para conservar a unidade do Espírito no vinculo da paz” (Ef 4,37).

A mesma doutrina sobre a “unidade do Espírito” encontra-se em Gl 5,22 onde o Apóstolo claramente revela que a própria paz interior do cristão não é um bem meramente intrínseco a cada um, mas é portador de verdadeira e integral comunhão fraterna. Portanto, deve-se concluir, que o cristão não é apenas alguém que se alegra e se compraz com o dom divino da paz, mas deve ser também o seu promotor e “operador”

“A sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento.

O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz".(Tg 3,17-18).

 

Conclusão: A obra da Paz

 

A realização da paz na conduta do discípulo aparece primeiramente em sua vida interior, consistente com o seu comportamento pessoal e portanto, também com a exigência de viver em paz com os outros. Esta exigência de viver em paz com os outros está expressa algumas vezes, no NT com o verbo “eireneuo”, isto é, “pacificar” que aparece no texto em que se pede que os cristãos sejam “o sal da terra” e por isso, devem viver na paz uns com os outros

"Por fim, irmãos, vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco". (2Cor 13,11);  "Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens". (Rm 12,18).

 

O mesmo compromisso cristão é expresso em Tg 3,18 (citado acima)  como “promover a paz “eirenopoieo”. O mesmo verbo aparece em Mt 5,9 entre as bem-aventuranças: “bem-aventurados os construtores da paz ”eirenopoioi” porque serão chamados filhos de Deus” De certo modo já se percebe como pré-anunciada a perfeição total da paz e do amor fraterno que será pedida por Jesus: "Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam," (Lc 6,27);  ‘amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem daí esperar nada. E grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom para com os ingratos e maus". (Lc 6,35)

 

 

As raízes de uma paz sociológica

 

A palavra pax, de origem latina, significa tranqüilidade, calma, paz de espírito, concórdia, estado de harmonia civil de uma nação que não mantém guerras. "Os madianitas foram humilhados diante dos israelitas e não puderam mais levantar a cabeça, de sorte que a terra pôde gozar um repouso de quarenta anos no tempo de Gedeão". (Jz 8,28).

 

Este conceito porém não acentua  aspectos mais dinâmicos da paz, como a relação entre pessoas que não somente anseiam, mas buscam construir uma situação ideal de entendimento, de bem estar, felicidade, saúde, bem e justiça não apenas em nível da pequena comunidade em que se vive, mas, sobretudo, em relação à macro sociedade: nossas cidade, todas as nações e com referência à própria humanidade.

Constitui esta preocupação algo que se impõe cada vez mais à atenção das pessoas, e das próprias comunidades menores. Ela aparece como um projeto desafiador, cheio de dificuldades e problemas, quase insolúveis, mas também como uma tarefa aberta ao futuro e sempre inacabada, pois o presente se encontra sempre ameaçado pela experiência do passado e pela incerteza do futuro.

 

As comunidades beneditinas, talvez desde o tempo de São Bento, sentiram certamente a necessidade de se posicionarem diante das exigências manifestadas pelas situações concretas dos lugares e dos tempos em que viviam.Tempos de guerras contínuas, invasões, devastações, misérias e pobreza.

Pelos relatos da Vida de Bento, narrada pelo Papa São Gregório, no Livro II dos Diálogos, vê-se que  várias vezes o Abade procura  harmonizar as exigências da vida interna dos monges, na sua comunidade, com as necessárias saídas para lugares mais perto ou distantes, segundo as necessidades do próprio mosteiro ou outras exigências, sobretudo pelo zelo do bem espiritual dos habitantes na mesma região.

Mas, certamente, em outras ocasiões, a comunidade de Bento deve ter sentido a necessidade, urgente talvez, de se posicionar diante dos grandes problemas decorrentes das graves alterações sociais e políticas decorrentes da queda do Império Romano e das invasões dos bárbaros.

É possível que o sábio conteúdo do capítulo terceiro tenha sido de grande utilidade para momentos em que a comunidade sentia a urgência de se posicionar e responder a situações concretas e difíceis. Necessidade de se chegar a uma visão objetiva e, sobretudo, iluminada pela luz da Fé e  das exigências dos Evangelhos. Como nos seria precioso poder descobrir qual o processo para esse discernimento !

 

As tradições filosóficas orientais entenderam sempre ser o amor universal, o que deve fazer frente ao domínio do egoísmo, a fonte de todo mal e gerador de apropriações indébitas. A tarefa educativa consistirá pois, fundamentalmente, em fazer aparecer e frutificar as boas disposições e capacidades humanas visando a humanização do ambiente.

O hinduismo repudia todo tipo de violência e insiste no respeito a toda e qualquer forma de vida. Em Gandhi este respeito à vida aparecerá em uma forma amável,mansa e tranqüila, mas também, conforme a situação, em outra, rebelde e intolerante contra toda forma de injustiça e violência. Ele diferencia esta atitude de uma mera paz interior e a justifica por ser uma conduta indispensável para a vida em sociedade. A sua não-violência se situa, não contra a violência, mas para além dela, superando-a.na construção de uma paz que é fraternidade universal com tudo que é vivo.

A Cultura da paz

Diz Dom Anselmo Grün que os sociólogos hoje constatam uma crescente incapacidade para a paz. A radicalização dos grupos dentro da comunidade aumentou. Tons mais agressivos, incapacidade de aceitar objetivos diferentes, formação de “imagens” inimigas a serem combatidas.

Por isso mesmo, hoje costuma-se dizer que a cultura da paz é obra prioritária de todas a sociedades e comunidades humanas. É necessário para isso que o processo pela busca da paz seja assumido em um projeto ético global, isto é, superando todos os interesses particularistas. M. Vidal diz que a ética da paz será o esboço que procura tornar realidade histórica o ideal utópico da paz de toda a humanidade.

Este projeto tem como sujeito prioritário a sociedade  civil e deve ser traduzido em criações culturais que comprometam o significado da existência dos homens e se enquadrem numa verdadeira proposta de civilização.

Assim entendida, a paz será uma forma criativa de construir a história

Julgamos oportuno transcrever aqui algumas formas ou elementos que, segundo alguns sociólogos, toda cultura da paz deve conter. Ou seja, essas formas ou algumas delas devem estar presentes em sociedades ou grupos humanos, para que neles seja possível o aparecimento e desenvolvimento do que se poderia chamar  as “raízes” para uma cultura de paz.

 

Otimismo antropológico.

 

Um dos mais importantes desafios para nós, hoje é tornarmo-nos pessoas positivas, que conseguem construir sem destruir os outros. Até os “programas” pela Paz podem ser perigosos porque já de início são orientados a combater algo ou alguém.

A cultura da paz deve recuperar a crença na dignidade e igualdade básicas de toda pessoa, isto é, deve confiar simplesmente no ser humano. Este elemento de confiança poderá fazer frente ao pessimismo antropológico reinante, que se fecha na incapacidade para a mudança e na constatação do domínio de alguns seres humanos sobre outros.

Todas as  formas de exaltação do próprio eu e de diminuição e menosprezo dos outros, de exacerbação nacionalista e visão  pessimista do estranho como agressor,  conduzem a uma cultura da violência. Essas culturas costumam partir sempre do pressuposto de que “o outro” é um infrator ou um infra-homem, por motivos de raça, sexo, crenças etc. e por isso deverá ser dominado e subjugado.

 

Satisfação  das necessidades básicas.

 

Não se pode esperar  o surgimento da paz enquanto a cultura reinante não esteja a serviço das necessidades legítimas e básicas das pessoas(alimento, habitação, saúde e educação, que permitem a todo ser humano viver com dignidade). A cultura decorrente de uma acirrada concorrência entre nações e comunidades internacionais, em luta por maiores riquezas econômicas e financeiras, tem como conseqüência uma injusta divisão dos bens indispensáveis. Já se falou mais do que necessário de um Norte rico e de um Sul pobre e violento. Torna-se pois impossível esperar a paz enquanto perdure aquela desigualdade e suas carências não forem minimamente atendidas, tanto entre as nações como entre comunidades e grupos sociais.

 

Afrontamento de conflitos;

 

“A riqueza do nosso tempo, tão carregado de conflitos mais ou menos explícitos, é talvez, a de ajudar-nos a tomar consciência da fecundidade de todo conflito, sob a condição de o reconhecermos como tal. Sem a presença “do outro”, eu não posso ser eu mesmo. Mas, o encontro com “o outro” trará, certamente um conflito.” (Marc Oraison, Les Conflits de l’existence, p.96).

A cultura da paz não advoga o desaparecimento dos conflitos, pois eles são inerentes à condição humana; o que ela estimula é o seu enfrentamento com todos os recursos disponíveis. Como tais, os conflitos são necessários e, em parte, constituem o motor da mudança social histórica. A cultura da paz deve procurar fazer com que o enfrentamento pessoal ou coletivo dos conflitos se realize a partir da experiência lúcida e convicta de que o homem é eminentemente criador e impulsionador de formas novas de ser e viver a realidade. Esta convicção se reflete melhor naquelas pessoas que Erik From caracteriza como ”biofilas”, isto é, que apontam sempre para o futuro, aportam soluções criativas, confiam nas possibilidades humanas e utilizam meios não-violentos na resolução de conflitos.

 

Articulação de estratégias de ação não-violenta.

O movimento pacifista tem-se distinguido historicamente por gerar estratégias de ação criativas e provocadoras, partindo do exemplo de Gandhi e Luther King. Essas e outras estratégias de ação devem procurar trazer à luz as contradições da cultura da violência e se configurar como meios alternativos não-violentos com vistas à resolução dos conflitos sociais propostos. Isto exigirá, porém, o acompanhamento de um processo pessoal e coletivo de conscientização e análise objetiva da realidade.

 

Perspectiva planetária

A enfermidade que aflige o nosso mundo, em termos de violência, em todas as suas manifestações, não contempla soluções parciais. A cultura da paz, expressão de universalidade, de totalidade e harmonia, deve impulsionar:

a)     enfoques de problemas e busca de soluções superando os níveis limitados e parciais

b)    escolha de objetivos operacionais que propiciem mudanças básicas

c)     a escolha de objetivos deve procurar garantir o mínimo de bem-estar humano e satisfazer as necessidades básicas e nunca em termos de poder e de riquezas.

 

A Paz na Regra de Bento

É oportuno lembrarmos que inicialmente tomamos conhecimento do que chamamos “textos-testemunhos”, nos quais os Papas mais recentes, bem como historiadores abalizados reconhecem claramente a obra evangelizadora da Paz, realizada pelos mosteiros beneditinos, não somente em épocas passadas, mas também nos tempos atuais.

 

Em seguida, procuramos aprofunda o significado da Paz, em suas raízes do Antigo e do Novo Testamento, descobrindo de que maneira uma cultura de Paz estará sempre dependente da fidelidade em vivenciar as experiências da nossa herança de Israel como condição para uma contínua autenticidade dos valores.

Vimos também, embora rapidamente, sobre quais raízes sociológicas, será possível brotar uma cultura social da paz.

 

Chegados finalmente ao momento em que deveríamos agora investigar, a Regra de São Bento, descobrindo não somente os textos em que se menciona a paz, mas todas as formas presentes na vida monástica tal como apresentada por Bento e que podem ser consideradas como as fontes de sua verdadeira doutrina sobre a Paz, tão reconhecida como presente e atuante através da tradição beneditina, em todos os tempos da sua história.

 

Pensamos que essa pesquisa, em lugar de ser apresentado pelo conferencista, poderá ser melhor trabalhada e de forma  mais pedagógica, se for realizada pelos próprios grupos de estudos. Se não fosse assim, pensamos que faltaria a esses grupos temas referentes à paz, mas que despertassem um verdadeiro interesse pela busca de soluções e respostas às questões difíceis e atuais,  próprias dos nossos dias e à luz da predominante cultura pós-moderna.

 

Apresentamos, pois, dez questões que poderão ser distribuídas aos diversos grupos. Cada grupo deverá apresentar, no final de um aprofundamento do tema,  e  por escrito, um texto  que manifeste e que corresponda realmente ao pensamento do grupo:

 

Primeira questão

 

Em um momento em que a paz mundial parece cada vez mais comprometida com tantas guerras regionais, com terríveis conseqüências para os seus habitantes e quando cada vez mais cresce o temor de uma conflagração generalizada, com o possível uso de armas atômicas, quais as atitudes que estão sendo tomadas neste momento (ou deveriam ser) pelas nossas comunidades, diante do nosso compromisso com a Paz Beneditina?

 

Segunda questão

 

Examinando com atenção o texto de Puebla (p.2) – em que se faz referência às comunidades beneditinas na Idade Média

 

a)     podemos afirmar que o testemunho da Paz estaria também incluído naquela afirmação elogiosa, bem como no conceito de uma  “comunidade evangelizadora”?

b)     Se fossemos hoje questionados, pelos nossos Bispos, sobre o testemunho do nosso modo atual de viver aquelas características de  nossa identidade beneditina, como poderíamos apresentar as nossas justificativas?

Terceira questão

 

Considera-se de grande importância, não apenas o conhecimento, mas também a análise dos principais documentos de Paulo VI sobre a vida monástica beneditina. São os seguintes (pp.4-7):

O Discurso em Montecassino (1964)

A Carta Apostólica declarando São Bento patrono da Europa (1964)

A Alocução aos Abades (1966)

 

a)     Examinando esses “textos-testemunhos” do Papa Paulo VI com que argumentos (textos) poderíamos comprovar que o Papa, entre os inúmeros benefícios que o monaquismo beneditino trouxera à Europa, enumerava também a missão da Paz?

b)    Será importante reunir todas as qualidades (com o próprio significado que lhes cabe) que Paulo VI atribui à vida beneditina e quais os principais efeitos positivos desta presença beneditina na Igreja, na Europa, e também no próprio homem?

c)     Com que palavras o Papa manifesta a sua convicção de que essas qualidades “beneditinas” deverão estar sempre presentes e atuais nos mosteiros, e para isso, algumas condições exigentes serão sempre necessárias. Poderemos dizer que ainda hoje essas palavras de Paulo VI conservam ainda o seu valor e atualidade?

 

Quarta questão

 

O Papa Bento XVI, na sua alocução sobre a Paz, para o dia 01 de Janeiro deste ano, desejando esclarecer os motivos para a escolha do seu nome, referia-se a São Bento como “patrono da Europa e inspirador de uma civilização pacificadora no Continente inteiro”.

Poderá o Grupo encontrar, entre os  “textos-testemunhos”, algumas citações que justifiquem essa afirmação?

 

Quinta questão

 

O Conceito bíblico da Paz, no AT manifesta-se intimamente relacionado com o mistério da Aliança, ou seja, da esperança pela vinda de uma Paz messiânica. Sendo a Regra de nosso Pai, em muitos pontos, bastante fiel a esta tradição bíblica, pode-se  encontrar textos da Regra Beneditina que revelem a presença da Aliança da Paz tanto na vocação do monge como também no testemunho da Comunidade?

 

Sexta questão

 

Conhecemos o quanto a Regra Beneditina está marcada por um radical Cristocentrismo. Sendo a Paz intimamente relacionada com a pessoa e a missão de Cristo, poderá o Grupo demonstrar a mesma centralidade da Paz de Cristo na vida do monge e da comunidade?

 

Sétima questão

 

Entre os Instrumentos das Boas Obras encontramos o texto da tradição monástica: “Não conceder  paz simulada.”

Uma leitura atenta da Regra nos poderá revelar os textos que manifestam o pensamento de Bento sobre esta atitude condenável, mas possível? Como expressá-lo?

Não poderemos negar que a exigência cristã de oferecer um testemunho de Paz verdadeira, não cabe somente aos monges, pessoalmente, mas também às comunidades monásticas.

Quais seriam as possíveis formas de vida da comunidade que nos dias de hoje poderiam ser consideradas como  “paz simulada”?

E como poderiam ser detectadas e evitadas?

 

Oitava questão

 

Considerando os cinco elementos ou formas de organização social que, segundo alguns sociólogos, devem estar na base de uma cultura de paz,

procurar na RB em que textos podem ser encontrados alguns desses elementos e analisar se, de fato, são eles fundamentos de uma paz comunitária?.

 

Nona questão

 

Pode-se encontrar na RB a procura por uma Paz Evangélica e em outros textos, a busca de uma paz meramente social ou comunitária? Quais os textos que justificam a resposta?

 

Décima questão

 

A RB insiste, em vários lugares,  que a justiça seja realmente a fonte da paz na comunidade.

Mas, ao mesmo tempo, mostra também a necessidade de se reconhecer e atender às legítimas necessidades pessoais, bem como a de valorizar e premiar aos que revelam maior empenho na caridade ou na obediência.

Bento reconhece, porém, o perigo da desigualdade resultante: a perda da “justiça distributiva”, da paz, e o aparecimento do vício da murmuração.

Muito importante será, pois encontrar, na Regra, aquelas formas de agir, próprias do Abade ou da Comunidade, que serão aptas para superar este problema.  Certamente que  essas formas serão válidas  ainda hoje para uma pedagogia da justiça e da eqüidade em qualquer comunidade.

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Textos da RB onde a Paz  é  menciona explicitamente

 

Prol 14-17 - E procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: "Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?" Se, ouvindo, responderes: "Eu", dir-te-á Deus: "Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a".

 

RB 4,25Não conceder paz simulada.

 

RB 4,73Voltar à paz, antes do por do sol, com aqueles com quem teve  desavença

RB 34,4-5 - quem precisar de mais, humilhe-se em sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que obteve. E, assim, todos os membros da comunidade estarão em paz.

 

RB 53,3-4 . Logo que um hóspede for anunciado, corra-lhe ao encontro o superior ou os irmãos, com toda a solicitude da caridade; primeiro rezem em comum e assim se associem na paz.

 

RB 63,4 - Portanto, segundo a ordem que ele tiver estabelecido ou que tiverem os irmãos, apresentem-se estes para a Paz, para a comunhão, para entoar os salmos, para estar no coro

 

RB 65,11 - . Por isso achamos conveniente, para a defesa da paz e da caridade, que dependa do arbítrio do Abade a organização do seu mosteiro

[este texto pode ser relacionado com o de Prol 46 nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado

e  v.47 mas, se aparecer...por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios  ou conservação da caridade]

 

 
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