Dom Abade Joaquim Zamith , OSB.

“Monaquismo” oferece-se informações sobre diferentes gêneros e formas de vida monástica que não somente estão hoje aparecendo nas mais diversas regiões da terra, mas que também revelam as suas origens em países como a India, China, Egito e Médio Oriente, até mesmo a 2.500 anos antes da nossa era cristã ... Leia mais

“Percurso da Vida Cristã e Monástica” .Isto se faz necessário para que se possa então discernir também quais as atitudes, as atividades que fazem parte do processo para aquisição de novas e indispensáveis experiências. ... Leia mais

“Mosteiros” apresenta endereços ou links para mosteiros onde podem ser encontrados textos ou atividades particularmente importantes para revelar aspectos autênticos da vida ou doutrina monástica. Também são apresentados fotos ou vídeos desses Mosteiros... ... Leia mais

Testemunhos dos Papas encontramos citações de documentos, alocuções, homilias e conferências em que a pessoa de Bento, a sua Regra ou mesmo o Monaquismo de forma geral, incluindo o testemunho pessoal de grande números de abades e monges são apresentados como importantes valores da tradição histórica, teológica e espiritual da vida religiosa ou da própria Igreja. ... Leia mais

São Bento e sua Regra - Considerações Introdutórias . dom Joaquim osb

Algumas anotações

para a Revista "Cult"  dom Joaquim Zamith osb)

 

A surpresa de um nome: Bento XVI

Não se pode deixar de reconhecer que foi uma grande surpresa, para quase todos que no dia 19 de abril esperavam conhecer o novo Papa, saber que o escolhido fora e o próprio Cardeal Ratzinger, cuja imagem, nas semanas anteriores, havia sido tão  identificada, pelos meios de comunicação, com aquela de um juiz severo do antigo tribunal da inquisição.  Surpresa não menor foi saber ainda que ele escolhera, para o seu ofício de Pastor da Igreja de Cristo, o nome de Bento XVI. Esse fato suscitou, logo em seguida, um grande interesse em se conhecer as razões desta escolha, bem como algo sobre a vida deste santo, do qual pouco ouvia-se falar. Alguns dias depois o próprio Papa esclarecia que havia pensado, primeiramente, no Papa  Bento XV que por ocasião do início da Grande Guerra de 1914, fora tão marcado pelos sofrimentos, mas muito  também se esforçara, junto aos Governos dos paises em luta, para que todos renunciassem à violência e procurassem chegar a um acordo de Paz.

Alem disso, dizia o papa, São Bento fora declarado o patrono da Europa por Paulo VI e entre os ensinamentos de sua Regra, existia um que julgava de particular importância e atualidade, a saber, a  centralidade na vida dos cristãos do amor à pessoa de Jesus Cristo, como Bento pede em sua Regra:  “nada antepor ao amor de Cristo”.

Mas, foi na véspera da própria Festa de São Bento no dia 11 de Julho, após a recitação do Ângelus, que novamente Bento XVI se referiu, agora com mais  vagar, à sua predileção pela pessoa de São Bento, tendo em vista, sobretudo, as necessidades e crises do mundo atual. Por serem essas palavras pouco conhecidas, pensamos ser oportuno citar aqui, na íntegra, este testemunho pessoal do papa..

“Queridos irmãos e irmãs: Amanhã celebra-se a festa de São Bento abade, patrono da Europa, um santo pelo qual sinto um amor particular, como se pode intuir por ter elegido seu nome. Nascido em Núrsia, em torno ao ano 480, Bento realizou seus primeiros estudos em Roma, mas decepcionado pela vida da cidade, retirou-se a Subiaco, onde permaneceu durante uns três anos no famoso «Sacro Speco», dedicando-se totalmente a Deus. Em Subiaco, servindo-se das ruínas de uma grande vila do imperador Nero, junto a seus primeiros discípulos, construiu alguns mosteiros, dando vida a uma comunidade fraterna fundada na primazia do amor de Cristo, na qual a oração e o trabalho se alternam harmoniosamente em louvor a Deus. Anos depois, em Montecassino, deu plena forma a este projeto, e o pôs por escrito na «Regra», sua única obra que chegou até nós. Entre as cinzas do Império Romano, Bento, buscando antes que nada o Reino de Deus, semeou, talvez sem nem sequer dar-se conta, a semente de uma nova civilização que se desenvolveria, integrando os valores cristãos com a herança clássica, por uma parte e das culturas germânica e eslava por outra.
Há um aspecto típico de sua espiritualidade, que hoje quero sublinhar de maneira particular: Bento não fundou uma instituição monástica orientada principalmente à evangelização dos povos bárbaros, como os demais grandes monges missionários da época, mas indicou a seus seguidores como objetivo fundamental da existência, e mais, o único, a busca de Deus: «Quaerere Deum». Contudo, sabia que quando o crente entra em relação profunda com Deus não pode contentar-se em viver de maneira medíocre, com uma ética minimalista e uma religião superficial. Desde esta perspectiva, entende-se melhor a expressão que Bento tomou de São Cipriano e que, em sua «Regra» (IV, 21), sintetiza o programa de vida dos monges: «Nihil amori Christi praeponere», «Não antepor ao amor de Cristo». Nisto consiste a santidade, proposta válida para cada cristão, que se converteu em uma autêntica urgência pastoral em nossa época, na qual se experimenta a necessidade de ancorar a vida e  a história em sólidas referências espirituais.”

 

Parece-nos igualmente importante e talvez ainda mais oportuno, conhecer outro pronunciamento, também recente, sobre a figura de Bento apresentado pelo ainda Cardeal Ratzinger, no final de uma Conferência pronunciada no Mosteiro de Subiaco, na ocasião em que recebeu o Prêmio “São Bento pela Europa”, que lhe fora concedido pela Fundação de Subiaco “Vida e Família”. Essa Conferência, com o seguinte título: “A Europa nas crises das culturas”, abordava as características principais das novas culturas que se manifestam nas correntes atuais do pensamento europeu. Essas culturas começam por negar, infelizmente, muitos dos principais valores da tradição da cultura cristã da Europa. No final dessa conferência o Cardeal Ratzinger se referia à importância, no momento atual, não somente dos trabalhos de grandes  eruditos nas ciências modernas, mas, sobretudo, da necessidade da presença de verdadeiros mestres, que sejam testemunhas e que falem mais pela própria vida do que pelas idéias que apresentam.  Neste momento Ratzinger voltava a referir-se a São Bento:

“Do que mais necessitamos, neste momento da história, é de homens que, através de uma fé iluminada e vivida, façam com que Deus seja credível neste mundo. O testemunho negativo de cristãos que falavam de Deus mas viviam  contra Ele, obscureceu a imagem de Deus e abriu a porta para a incredulidade. Necessitamos, portanto, de homens que tenham o olhar fixo em Deus, abram o coração, de maneira que sua inteligência possa falar à inteligência dos outros e seu coração possa abrir o coração dos demais.

Somente através de homens que tenham sido como que “tomados por Deus”, Deus poderá voltar a estar presente entre os homens. Necessitamos de homens como Bento de Núrsia, que, em uma época de dissipação e decadência, penetrou na solidão mais profunda, conseguindo depois de todas as purificações que teve que sofrer, levantar-se até à luz, regressar e fundar Montecassino, a cidade sobre o monte que, entre tantas ruínas, reuniu as forças com que formou um mundo novo.

Deste modo Bento, como Abraão, chegou a ser pai de muitos povos. As recomendações a seus monges, apresentadas no final de sua “Regra” são indicações que nos mostram, também a nós, o caminho que conduz ao alto, a sair da crise e dos escombros. “Assim como há um mau zelo de amargor que separa de Deus e conduz ao inferno, há também um zelo bom que separa dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. Pratiquem pois os monges este zelo com a mais ardente caridade, isto é, “antecipem-se em honras uns aos outros”; tolerem-se com suma paciência suas fraquezas, tanto corporais como morais .... pratiquem castamente a caridade fraterna; temam a Deus com amor; ... e nada absolutamente anteponham a Cristo, que  nos conduza todos juntos para a  vida eterna”  (RB 72).

Bento – sua vida .

Alguns fatos significativos da vida de Bento já foram citados pelo papa Bento XVI.  O que conhecemos de sua vida foi-nos transmitido por uma das  obras literárias do papa São Gregório Magno.

Este papa, foi anda jovem prefeito dacidade (praefectus urbis), o mais alto cargo da administração civil da Roma bizantina (572). Apesar desta posição promissora, Gregório tudo abandonou e passou a viver como monge no palácio de sua família, que foi transformado em mosteiro (Santo André, no monte Célio). Mas, pouco tempo permaneceu no seu mosteiro, vivendo entre os irmãos, inteiramente dedicado a uma vida de oração e de meditação  das Sagradas Escrituras. Após cinco ou seis anos  teve que abandonar este ideal, que lhe era tão amado, por ter sido nomeado pelo papa como apocrisiarius, isto é, embaixador apostólico junto  à corte do Imperador, em Constantinopla. Em 586 tornou-se um dos mais importantes assessores do papa. Em em 590 foi aclamado Papa e cumpriu tão bem a sua missão que recebeu o cognome de Grande. Mas, apesar disto, Gregório sempre se lamentou por ter perdido a graça de viver somente para as coisas de Deus, na oração e na divina contemplação dos seus Mistérios. Seu nascimento dista apenas 60 anos da morte de São Bento, a quem tanto admirou e cuja vida escreveu no seu "Livro II dos Díálogos" onde fala de outros homens de Deus, da mesma época.

Gregório escreveu, evidentemente, a vida de Bento utilizando-se de outra forma literária, bem diversa da que usamos hoje. Narrando acontecimentos que manifestavam as qualidades e virtudes pessoais do servo de Deus, procura mostrar, ao mesmo tempo, de que maneira foi capaz de suportar múltiplos sofrimentos, provações e tentações apoiando-se na sua fé e na força que dela procede. Gregório desenvolve assim a sua narrativa, não considerando tanto as datas dos fatos nem mesmo os acontecimentos em si mesmos, mas sim, os seus significados à luz da Fé e da Sabedoria divina. Em visto disto, os principais acontecimentos vão sendo apresentados e concatenados como experiências ao mesmo tempo humanas e divinas, e nas quais se verifica uma verdadeira purificação interior do servo de Deus. Essas experiências, em que a fidelidade do homem responde aos dons de Deus, procuram descrever como que um processo progressivo de iniciação mística, isto é, de um verdadeiro encontro com Deus.  É justamente nesta linha de leitura da vida de Bento que o papa se referiu aos sofrimentos do jovem monge como um caminho para a perfeição da sua maturidade espiritual: “Necessitamos de homens como Bento de Núrsia, que, em uma época de dissipação e decadência, penetrou na solidão mais profunda, conseguindo depois de todas as purificações que teve que sofrer, levantar-se até à luz, regressar e fundar Montecassino, a cidade sobre o monte que, entre tantas ruínas, reuniu as forças com que formou um mundo novo”.

Pode-se comparar a biografia de Bento escrita pelo papa São Gregório Magno com outras “vidas” mais antigas da literatura monástica. Aliás, o primeiro modelo foi, sem dúvida, a “Vita Antonii” ou seja, a vida de Santo Antão, escrita por Santo Atanásio, arcebispo de Alexandria (328). Nela, dizem os especialistas, “distinguem-se quatro etapas, progredindo sempre para uma mais profunda interiorização (tanto no deserto, como no interior do coração). Cada vez, um novo corajoso despojamento  é seguido por encarniçada resistência do maligno, por um novo socorro divino e por fim, de uma maior irradiação espiritual.

Idêntico esquema de composição hagiográfica, a saber: progressão das etapas no caminho do deserto e maiores progressos espirituais. encontramos também  nas “Homilias sobre o livro dos  Números” de Orígenes, na “Vida de Moisés” de São Gregório de Nyssa e a também na “Vida de São Martinho” por Sulpício Severo.[1]

 

Bento – sua Regra

A chamada Regra dos monges (ou dos Mosteiros), também conhecida como “Regula Benedicti” è a única obra conhecida de São Bento. Pode-se dizer que ela é o  testamento espiritual que Bento deixou como herança aos seus filhos e filhas. Embora tendo sido interpretada de maneiras diferentes, em diversos aspectos, no decurso da História, é a Regra, no entanto, como um documento autêntico e fielmente transmitido, que tem sido responsável pela uniformidade dos princípios e a garantia de um estilo ou forma de vida monástica denominada “beneditina”.

É importante notar ainda, que mesmo dentro dessa precariedade própria a um documento de épocas passadas, aberto a diferentes e possíveis interpretações, é a busca por uma observância mais fiel da Regra que, em diferentes épocas, tem sido o critério assumido para justificar um movimento de reforma , por maior autenticidade, na vida das comunidades.

É evidente que ainda dentro desse processo de reforma, buscava-se também uma maior fidelidade aos valores evangélicos nelas contidos, como fontes autênticas de inspirações para as necessárias transformações e adaptações.

Pode-se dizer que hoje em dia a palavra Regra, significando uma norma de vida, é bem pouco compreendida, e conseqüentemente, apreciada. Reagindo contra um excesso de autoritarismo e de imposições de regulamentos e regras de comportamentos nos processos educativos, tanto nas escolas como também no ambiente familiar, a cultura moderna reage contra todas as formas de imposição e valoriza, muitas vezes em excesso, a valor da liberdade de pensamento, de opções, julgamento e ações. Não se pode deixar de lamentar os excessos de épocas passadas, mas também não se pode negar que reações excessivas, eliminado qualquer norma pode impedir ou até destruir a existência de uma comunidade humana.

A lei não visa, em primeiro lugar, rejeitar a liberdade das pessoas, mas sim, salvar justamente o bem comum da própria sociedade ou de qualquer comunidade. Neste sentido, uma lei justa não se apresenta como imposição, mas sim como a revelação de um modo de agir, como um caminho, que em certos casos pode ser o único, para impedir a desgraça. Por isso mesmo, existem normas que não necessitam ser formuladas por nenhuma autoridade, para serem válidas, pois já estão presentes nas próprias consciências das pessoas, tais como: “não deverás fazer aos outros o que não desejas que te façam; não matarás, não roubarás, não levantarás falsos testemunhos, não cobiçaras as coisas alheias”, e antes de qualquer outra: “amarás o seu Senhor teu Deus e ao teu irmão, como a ti mesmo”.

Um fato significativo, não raro hoje em dia, é a existência de muitos grupos de leigos desejosos de viver uma vida comunitária autenticamente cristã, estarem descobrindo na Regra de São Bento, com mais de 15 séculos de existência, os princípios e observâncias básicas necessárias para esta experiência de vida [2].

 

A Regra fonte de Vida e critério de Veracidade

a) Quando se fala de regras e normas dentro de uma experiência religiosa, deve-se reconhecer que há algo novo na mesma palavra. Neste caso, a Regra não apenas mostra um bem necessário, mas ensina também como se deverá agir para se chegar até ele. Por isso mesmo, já no Antigo Testamento o palavra que significa “mandamento” (mitsvah) não é simplesmente lei ou norma imposta, neste caso, pela vontade de Deus. Ela é, muito mais, o ensinamento de um “modo de agir” que irá garantir o caminho certo para o encontro com Aquele que nos chama e nos espera para a realização da Aliança do seu amor.. Assim também, quando se fala de “mandamentos” (entolé) dos Evangelhos de Cristo, nada está sendo imposto, mas trata-se de uma revelação de determinada e necessária “atitude” para a consecução de um bem já prometido. E esse bem será o encontro na sua Aliança. Assim dizia Jesus (Jo 14,21) “quem guarda os meus mandamentos é o que me ama, eu o amarei e me revelarei a ele...meu o amará e nos viremos a ele e faremos nele a nossa morada”.

Uma Regra monástica só poderá ser entendida à luz desta realidade da Aliança  e da promessa evangélico da norma-mandamento.

b) A vida monástica, sobretudo quando vivida em comunidade, é apresenta por São Bento, como uma “escola onde de deverá aprender a servir o (Cristo) Senhor”. Trata-se, pois de um grupo de cristãos que, tendo descoberto a radicalidade da sua vocação cristã, procuram uma escola e, naturalmente, um mestre, para serem não somente “instruídos”  mas mesmo “treinados” naquele modo de viver que o próprio Cristo nos transmitiu. Trata-se portanto de uma transmissão de um experiência a ser vivida, através de um aprendizado constante na comunhão fraterna, descobrindo-se sempre como viver os “caminhos” (mandamentos) que o próprio Cristo nos revela, para cada situação concreta e atual. A Regra beneditina refere-se a esta educação prática do monge com termos bem característicos:  “provação diuturna no mosteiro, uma instrução pela companhia de muitos, aprender a lutar contra o demônio, bem adestrados nas fileiras fraternas, na consolação de outros” (RB 1,3-5)

c) Na tradição monástica primitiva a palavra Regra referia-se quase sempre à autoridade do abade. Esta autoridade, porém jamais era arbitrária, mas, como bem mostra Bento no capítulo do abade, “o abade nada deve ensinar, determinar ou ordenar que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento, como o fermento da divina justiça se espalhe na mente (coração) dos discípulos.” Logo em seguida acrescenta: “proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples, mostre os preceitos divinos pelas próprias ações”.

Mais tarde, passou a designar também o conjunto das normas práticas que ensinavam como viver aquele caridade fraterna, característica dos cristãos da primeira comunidade de Jerusalém, que pondo em prática os mandamentos de Cristo realizam a verdadeira comunhão (koinonia) no amor onde tudo era comum a todos e “havia um só coração e uma só alma”[3]. A esta regra prática da comunhão, transmitida a partir da comunidade cristã, a uma comunidade de monges e assim, de uma geração a outra, dava-se o nome de “Regula Communis”.

d) Devemos nos referir, ainda que rapidamente, ao significado da palavra Regra, nos importantes documentos encontrados em 1947 nas grutas nas vizinhanças do Mar Morto, em Israel,, junto ao mosteiro de Qumrân, e hoje considerado, quase que por unanimidade, como tendo sido habitado pelos Essênios. De particular interesse para o monaquismo, em geral, é o documento encontrado na Gruta n.1, e um dos mais bem conservados, chamado "Regra da Comunidade" (anteriormente fora conhecido como "Manual de Disciplina"). Segundo os especialistas, esse manuscrito data do período de 100 AC a 75 DC. sendo formado por composições de épocas sucessivas. A Regra da Comunidade seria a parte mais antiga, apresentando as normas para a vida da comunidade dos essênios, como um “manifesto” que cristalizou por assim dizer o ideal do movimento pré-kumraniano e que levou à formação da comunidade em Qumrân.[4] Esta comunidade considerava-se herdeira da verdadeira “Comunidade da Aliança” e vivia no deserto justamente para se preparar, através de uma meditação contínuas das Sagradas Escrituras e de uma severa disciplina penitencial, a aguardar a chegada do Messias e a renovação da Nova Aliança.

e) Finalmente, um outro sentido da palavra Regra pode nos ajudar a compreender melhor a sabedoria da Regra de Bento. A palavra grega que melhor exprime o sentido do latim “Regula” é “kanon”  que significa não somente norma,. Mas, sobretudo, o critério para se efetuar um verdadeiro discernimento das situações concretas em vista de se descobrir qual o agir verdadeiro que atualiza  os seus mandamentos d Aliança a serem observados para que se cumpra a vontade de Deus e assem sejam realizados os seus Desígnios de Amor e Salvação. Assim, como existe um critério para o agir “segundo Deus”, os filósofos gregos procuravam estabelecer um critério para a Verdade, um critério para a Beleza, um critério para a Bondade, para a Harmonia, etc.

Entendendo melhor  a profundidade do conceito de “Regra” tanto na sabedoria dos gregos, como na tradição judaica dos essênios e na vida monástica cristã, poderemos então compreender também por que motivo Bento, no final do Prólogo da sua Regra, encoraja aqueles que desejam responde ao chamado de Deus, com as mais belas palavras de toda a sua Regra:

“Devemos, pois, constituir uma escola do serviço do Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas, se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de equidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade, não fujas logo tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por um estreito início. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura do amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus”.

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Devemos nos referir, ainda que rapidamente, ao significado da palavra Regra, nos importantes documentos encontrados nas grutas, junto ao mosteiro de Qumrân, e hoje considerado, quase que por unanimidade, como tendo sido habitado pelos Essênios. De particular interesse para o monaquismo, em geral, é o documento encontrado na Gruta n.1, e um dos mais bem conservados, chamado "Regra da Comunidade" (anteriormente fora conhecido como "Manual de Disciplina"). Segundo os entendidos, esse manuscrito data do período de 100 AC a 75 DC. sendo formado por composições de épocas sucessivas. A Regra da Comunidade seria a parte mais antiga, apresentando as normas para a vida da comunidade dos essênios, como um “manifesto” que cristalizou por assim dizer o ideal do movimento pré-qumraniano e que levou à formação da comunidade em Qumrân.[5]

 

 

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Sendo a Regra um elemento fundamental para a vida monástica beneditina, é natural que da compreensão que dela têm os monges dependerá, em grande parte, a fidelidade e autenticidade do caráter beneditino de suas vidas.

A variedade de interpretações, no decurso da História, nos revela, por outro lado quão difícil e delicado é essa compreensão, especialmente pelo fato do próprio autor da Regra justificar certas alterações que poderiam ser feitas, em virtude das variadas circunstâncias de lugar, de tempo e, de modo especial, das condições e características pessoais daqueles se propuseram abraçar e seguir a Regra.

A primeira dificuldade, talvez a mais fundamental, já se manifesta quando o leitor de épocas mais recentes, se depara com o título com o qual ela se apresenta: a “ Regra dos Monges” entendendo-se que ela quer ser uma norma de vida para todos os monges, indistintamente.

Poderá uma experiência espiritual, tão presente em tantas culturas humanas e tão característica do mistério de uma vida desenvolvida a partir do seu centro mais íntimo, ser dirigida por normas e por uma lei de tal modo abrangente?

 

As raízes da Regra.

 

Torna-se necessário, pois, esclarecer que a compreensão da Regra de São Bento só poderá ser verdadeira se for estudada, primeiramente, à luz das experiências monásticas de épocas  anteriores e igualmente, à luz dos documentos que, de certo modo, tornaram-se fontes da Regra Beneditina.

 

Nos últimos cinqüenta anos esse caminho das fontes literárias tem se apresentado bastante rico, na medida em que o conhecimento das muitas e diversas experiências de vida monástica, desde os seus primórdios, vem revelando a grande variedade de significados da própria palavra Regra. Já o fato dela não aparecer nos documentos mais primitivos, mas somente alguns séculos mais tarde, é bastante significativo.

Como mostra muito bem De Vogüé, em seu artigo clássico sobre o significado das Regras antigas[6], os primeiros autores latinos que se referem aos monges cenobitas caracterizam o seu modo de viver pela “obediência ao superior”. Assim, por exemplo, já no século IV diz Cassiano: “os cenobitas vivem em comunidade e são governados pela autoridade de um“ancião” ou “superior”. Também Jerônimo: “viver no mosteiro sob a disciplina de um só Pai e na comunhão com muitos”[7]. Um século mais tarde, Fulgêncio de Ruspe já menciona a regra dos cenobitas, mas a compreende simplesmente como a própria autoridade do abade. O mesmo fato aparecerá também, várias vezes, em Gregório Magno[8]. Concluindo diz De Vogüé: “Esse conjunto de textos concordantes demonstram de modo suficiente que a definição dos cenobitas, por Cassiano, no cap.4º da 18ª Conf. expressa o pensamento comum aos monges do século IV ao VI. Conseqüentemente, vemos o quanto a fórmula do Mestre e de Bento é original. Colocando  a Regra ao lado do abade, e até mesmo antes deste, nossos dois legisladores introduziram um elemento novo e de grande interesse[9].

Mas é oportuno e significativo notar ainda com De Vogüé, que Cassiano entende também por “regra”, não uma invenção de cada superior, mas a “disciplina” que os apóstolos haviam inculcado aos seus primeiros discípulos e sendo transmitida pela tradição dos antigos, era observada pelos cenobitas, ainda no seu tempo, através da autoridade do abade. A essa “regra” não escrita dava-se o nome de “regula communis”.

 

Quando a Regra do Mestre e a Regra de São Bento, pela primeira vez (século V), vão caracterizar os cenobitas como os que vivem em  comunidade e obedecem à Regra e ao Abade, compreendemos então que a Regra não se apresenta como algo inteiramente novo, mas como um documento utilizado pelo abade, mas como elemento integrado e recebido através da linha da Tradição dos antigos, vindo desde os tempos apostólicos.

 

Chega-se assim à constatação de que o monaquismo cristão é uma forma de vida que nasce da própria experiência da vida cristã, fundamentada nos textos das Sagradas Escrituras. São eles, tanto os do Antigo como do Novo Testamento, indispensáveis para a experiência monástica. E da mesma forma que as Escrituras Sagradas sempre foram ensinadas através de um processo de transmissão pessoal do texto, quer oralmente ou por escrito, assim também as receberam os primeiros monges. Por esta razão a Escritura e principalmente os Evangelhos foram sempre considerados como a Regra fundamental de qualquer vida monástica. Mas as Escrituras não supõem apenas um transmissor da Palavra, mas também um Mestre que primeiramente a viva, para depois poder transmiti-la e ensiná-la. Pode-se dizer, portanto que tanto o Cristianismo, como o monaquismo, de modo especial, conservaram sempre um processo de comunicação e ensinamento que é denominado de "iniciático".

Devemos nos referir, ainda que rapidamente, ao significado da palavra Regra, nos importantes documentos encontrados nas grutas, junto ao mosteiro de Qumrân, e hoje considerado, quase que por unanimidade, como tendo sido habitado pelos Essênios. De particular interesse para o monaquismo, em geral, é o documento encontrado na Gruta n.1, e um dos mais bem conservados, chamado "Regra da Comunidade" (anteriormente fora conhecido como "Manual de Disciplina"). Segundo os entendidos, esse manuscrito data do período de 100 AC a 75 DC. sendo formado por composições de épocas sucessivas. A Regra da Comunidade seria a parte mais antiga, apresentando as normas para a vida da comunidade dos essênios, como um “manifesto” que cristalizou por assim dizer o ideal do movimento pré-qumraniano e que levou à formação da comunidade em Qumrân.[10]

 

A partir desses testemunhos que manifestam a relação íntima entre a Regra e o ideal proposto pelas Sagradas Escrituras, pareceu-nos mais oportuno considerar agora não mais o significado da Regra em cada um dos diversos textos fontes da RB, mas examinar sim, e de modo cuidadoso e atento, todos os textos da Regra beneditina. Ou seja, pelo estudo do contexto em que se encontra, buscamos qual o sentido com que a própria Regra se apresenta ao leitor..

 

Muitos autores de comentários sobre a Regra já se ocuparam de estudar  os mesmo textos, mas sempre o fizeram dentro do estudo dos respectivos capítulos, sem a intenção de um estudo comparativo dos mesmos textos. .

Em síntese, o que se deseja fazer aqui é pesquisar a própria Regra e perguntar o que ela afirma de si mesma. Qual será o sentido da palavra Regra, nos muitos textos em que a própria Regra beneditina se refere a si própria? Procuramos estudar então, na verdade, a palavra "regra" em todos os capítulos da Regra beneditina, para verificar, na medida do possível, quais os traços comuns,  quais os mais característicos ou as nuances que  se tornam visíveis para o leitor atento.

 

 

 

 

 

 

 

Não se tem certeza de ter ele seguido a Regra beneditina, que conheceu, mas sim, que viveu e procurou permanecer sempre monge, em seu coração. Gregório pode ser considerado também como  grande teólogo, cuja Teologia se originou a partir da sua própria experiência de vida monástica e de modo especial, da sua Lectio Divina.

Dom Jean Leclercq nos apresenta uma excelente síntese de sua visão teológica, da qual citamos alguns textos

O seu ensinamento espiritual não é um sistema; nem é também um método. Mas a sua  doutrina sobre a oração está relacionada com uma concepção geral sobre a vida cristã. Esta é concebida como uma vida de desapego e de desejo: desapego do mundo e do pecado e intenso desejo de Deus. No ponto de partida dessa visão da vida cristã está uma consciência viva da miséria do homem. Mas trata-se de uma consciência vivida, brotada da experiência.  Conseqüentemente, a certeza sobre a necessidade que temos de Deus. Da compunção nasce o intenso desejo de Deus, em uma vida de tentações e de despojamentos, aprofundada e confirmada pelo conhecimento amoroso na contemplação.

Gregório evoca essas fases sucessivas em descrições continuamente renovadas. Ele não as analisa em termos abstratos, filosóficos; retira da Bíblia as imagens concretas que permitem a cada pessoa reconhecer, em suas próprias experiências, a sua própria aventura. É desta forma que o seu magistério ia respondendo às necessidades das gerações que nasciam do mundo bárbaro, após as invasões. A essas almas simples e novas, Gregório oferecia uma descrição da vida cristã reconfortante e acessível a todos. Sua doutrina, muito humana, estava fundamentada no conhecimento do homem tal como ele é, corpo e alma, carne e espírito; sem ilusões, como também sem desespero. Era também animada por uma visão de fé em Deus, por uma verdadeira confiança no homem, em quem Deus habita e em quem trabalha, por meio das provações.

Enfim, pode-se afirmar que essa doutrina é uma verdadeira teologia, pois, em muitos textos, está presente o que chamamos de "dogmática", e, além disso, ele encaminha  um aprofundamento das questões do agir do homem, em sua vida moral pessoal e social, vida espiritual e mística.  Embora distribuída através  de muitos comentários, essa teologia já é bastante explícita. Quem afirmaria que em Platão não se encontra uma verdadeira filosofia, pelo fato dela se encontrar dispersa em seus diálogos?

Gregório reflete sobre as realidades da fé, para melhor compreende-la e não se limita a formular diretrizes práticas sobre a maneira de viver, de acordo com aquelas realidades. Ele procura e propõe um conhecimento profundo: a busca de Deus, a união com Deus, são explicadas segundo uma doutrina abrangendo as relações do homem com Deus. Sobre essa doutrina e os textos que a exprimem, a Idade Média monástica jamais cessou de refletir. Parece até que sobre a análise teológica da experiência do homem em sua relação com Deus, nada de muito original foi acrescentado após Gregório. Mas, para que as idéias antigas permaneçam jovens, é necessário também repensá-las, a cada geração, re-descobrindo-as como se fossem novas; a tradição beneditina jamais faltou também a esse dever[11].

 

 

O único documento histórico que possuímos a respeito da vida do santo Legislador é o Livro II dos Diálogos, escrito pelo próprio papa, que ao lado da Regra dos Mosteiros, do próprio Bento, constituem a nossa única fonte de conhecimento de sua vida, personalidade e o seu espírito.

 

São Gregório Magno, antes da sua eleição para Bispo de Roma, fora monge e possivelmente abade do mosteiro por ele fundado em sua própria residência, no monte Célio. D.Justino MacCann, osb, um dos bons biógrafos de São Bento, assim se refere ao santo Pontífice:

"Ele está numa posição única em relação ao monaquismo beneditino.  Foi monge e depois abade, antes de ser papa e é praticamente certo que usou a Regra que, depois, tão calorosamente aprovou. Pode-se dizer, com justiça, que ele foi a maior e mais poderosa influência na propagação do monaquismo beneditino e pode mesmo ser considerado como o seu cofundador[12]".

 

Introdução

Quem estudar, ainda que rapidamente, a história da Europa nos séculos VIII, IX e X não pode deixar de constatar com admiração, a imensa obra civilizadora realizada pelos monges beneditinos. Não somente levaram a fé cristã a regiões longínquas, habitadas por povos bárbaros, mas estabeleceram mesmo os fundamentos de uma civilização e de uma cultura que seriam as bases da própria sociedade medieval.

 

Agostinho na Inglaterra, Bonifácio e Wilibrordo na Alemanha, Anscário na Escandinávia, foram alguns dos grandes missionários e apóstolos destes séculos, todos eles monges, unindo à vida de renúncia, de louvor de Deus e oração, os cuidados pastorais das novas igrejas por eles fundadas.

 

Toda esta intensa atividade missionária e pastoral realizada muitas vezes em situações totalmente diversas daquelas em que se desenvolveu o monaquismo primitivo, nos leva a procurar conhecer as causas deste novo e intenso movimento de vida monástica, bem como o espírito que o animou. Uma pergunta se apresenta inevitavelmente à nossa mente: terá o monaquismo beneditino permanecido fiel aos seus princípios fundamentais ? Terá conservado, através de tantas vicissitudes históricas, o verdadeiro espírito de São Bento ?

 

O problema é em si bastante complexo, quer pela diversidade de causas, quer pela própria dificuldade de se determinar o espírito de uma instituição como o monaquismo, que não está submetido a fórmulas rígidas e fixas.

 

Limitar-nos-emos, no presente trabalho, ao estudo de um dos fatores, sem dúvida, o mais importante neste desenvolvimento do monaquismo beneditino: a influência pessoal exercida pelas idéias e atividades do grande papa e monge São Gregório Magno. Ou melhor, procuraremos determinar, na medida do possível, qual a concepção da vida monástica deste grande papa, vista e analisada através somente de sua correspondência.

 

A sua ampla e profunda preocupação pelos mosteiros, não poderia deixar de ser conforme ao ideal da vida monástica que ele sempre procurou manter e que, possivelmente, ele mesmo abraçara.

É evidente que não se poderia ter a ousadia de apresentar a doutrina monástica de São Gregório unicamente através do estudo de sua correspondência, sem se consultar as demais obras. Mas, como até agora, o estudo das suas cartas não tem sido abordado com maior atenção, pensamos que esta leitura que pretendemos fazer,

poderá ser útil e oportuna, como parte a ser integrada entre a demais pesquisas.

 

Todos reconhecem a importância primordial do papa São Gregório Magno para o monaquismo beneditino, uma vez que ele, como afirma, conheceu pessoalmente os sucessores imediatos de São Bento, no governo do mosteiro de Monte Cassino e, além disto, conviveu com aqueles monges que haviam recebido diretamente do Santo Patriarca, os seus últimos ensinamentos e admoestações.

 

O único documento histórico que possuímos a respeito da vida do santo Legislador é o Livro II dos Diálogos, escrito pelo próprio papa, que ao lado da Regra dos Mosteiros, do próprio Bento, constituem a nossa única fonte de conhecimento de sua vida, personalidade e o seu espírito.

 

São Gregório Magno, antes da sua eleição para Bispo de Roma, fora monge e possivelmente abade do mosteiro por ele fundado em sua própria residência, no monte Célio. D.Justino MacCann, osb, um dos bons biógrafos de São Bento, assim se refere ao santo Pontífice:

"Ele está numa posição única em relação ao monaquismo beneditino.  Foi monge e depois abade, antes de ser papa e é praticamente certo que usou a Regra que, depois, tão calorosamente aprovou. Pode-se dizer, com justiça, que ele foi a maior e mais poderosa influência na propagação do monaquismo beneditino e pode mesmo ser considerado como o seu cofundador[13]".

Um juízo crítico que desperta uma busca.

 

No dia 25 de Abril de 1975 o “O Jornal do Brasil” publicou no Caderno B p.10, a seguinte   notícia:

“O Professor René Dubos da Rockefeller University, americano de origem francesa, 73 anos, adquiriu renome mundial com seus trabalhos sobre microbiologia, que  abriram caminho para a descoberta dos antibióticos. Dedicado hoje ao estudo físico-químico, biológico e social da espécie humana, esse sábio discorda frontalmente dos “profetas do Apocalipse”. Otimista, ele acha que o homem, apesar das aparências em contrário, não caminha para a destruição - haveria nele como que uma sabedoria intrínseca que o levaria a superar os momentos críticos, um instinto de sobrevivência que se imporia afinal, sobre as ameaças de catástrofe para a espécie.

... Ao contrário de muitos outros pensadores de sua geração, René Dubos vê “aspectos salutares” na chamada contracultura.

Diz ele: “Eu tenho uma admiração sem limites pela Ordem Beneditina. Essa Ordem criou uma contracultura na Idade Média, no exato momento em que se reclamavam mudanças.

Exatamente como o Cristianismo surgiu e combateu os excessos degradantes da vida romana, a Idade Média tinha necessidade de qualquer coisa de novo, um retorno ao absoluto.

A Ordem Beneditina era um outro universo, e o espantoso, a seu respeito, é que a cada vez que a Ordem foi ameaçada de perder suas características originais, novas contraculturas surgiram em seu seio.

Isto se aplica ao homem em geral, pois a humanidade sempre esteve envolvida em situações perigosas, que poderiam tê-la conduzido à sua própria destruição. Mas sempre surgiram as contraculturas."

 

É evidente que a admiração que René Dubos manifesta pela Ordem Beneditina não se refere à Ordem como tal, enquanto uma estrutura que unifica as suas diversas comunidades, como um todo. O que Dubos chama de "contraculturas" que surgiram dentro da própria Ordem, em determinadas épocas,  só pode entender-se de movimentos de idéias que resultaram do desejo fiel de conservar vivos os mesmos ideais cristãos e monásticos, na busca dos mesmos valores, mas dentro das mais diversas situações geográficas e acontecimentos históricos.

 

Esses movimentos internos nem sempre foram tranqüilos e pacíficos, pois os homens, ainda quando buscam a santidade, não se conformam facilmente em aceitar as atitudes e comportamentos costumeiros como garantia da verdade e legitimidade da vida.. As mudanças e adaptações a novas situações são inevitáveis e são elas que vão exigir dos homens o necessário discernimento entre o  que pode permanecer e o que deve ser readaptado, a fim de que os mesmos valores possam ser preservados. Esses sim, como expressão dos ideais, permanecem idênticos, mas como são abstratos, exigem dos homens a inteligência prática, o discernimento e também a coragem para a escolha das melhores formas, dos meios e momentos para a sua atualização.

Assim como para a cultura humana, também na vida cristã e nas comunidades monásticas, a verdade e a perfeição não podem estar em estabelecer "normas e costumes", mas sim criar  condutas e comportamentos comprometidos, a cada momento, com as exigências do ideal do Evangelho e da tradição monástica.

Porém, pode-se perguntar, como poderia a Ordem Beneditina conservar vivo, em seu seio, esse movimento de fidelidade ao passado e suscitar, ao mesmo temo, uma necessária autocrítica, com a abertura para novas formas, mas conservando a mesma "identidade" beneditina?

Esse elemento responsável, tanto pelo que muda como pelo que deve permanecer, pode ser identificado com uma certa visão ou mentalidade, conhecida como “o espírito beneditino”, transmitido de geração a geração. Mas um “espírito”, por ser algo imponderável, necessita, como sua fonte, de algum elemento mais concreto e que permaneça continuamente presente na própria “forma da vida beneditina”. Esse elemento não poderia ser outro que a própria Regra dos Monges. Essa Regra é como o testamento espiritual que São Bento deixou como herança aos seus filhos e filhas. Embora tendo sido interpretada de maneiras diferentes, em diversos detalhes, e permitindo até mesmo a existência de várias formas válidas e diferentes de “vida beneditina”, no decurso da História, é a Regra, no entanto, como um documento autêntico e fielmente transmitido, é que tem sido responsável pela uniformidade dos princípios e a garantia de um estilo ou forma de vida monástica denominada “beneditina”.

É importante notar ainda, que mesmo dentro dessa precariedade própria a um documento de épocas passadas, aberto a diferentes e possíveis interpretações, é a busca por uma observância mais literal da Regra que, em diferentes épocas, tem sido o critério assumido para justificar um movimento de reforma , por maior autenticidade, na vida das comunidades.

É evidente que ainda dentro desse processo de reforma, buscava-se também maior fidelidade aos valores evangélicos, porém como fontes autênticas das inspirações para as necessárias transformações. É muito significativo o fato, não raro hoje em dia, de muitos grupos leigos desejosos de viver uma vida comunitária autenticamente cristã, estarem descobrindo na Regra de São Bento, com mais de 15 séculos de existência, os princípios e observâncias básicas necessárias para esta experiência de vida [14].

 

A necessidade de uma Regra

 

Sendo a Regra um elemento fundamental para a vida monástica beneditina, é natural que da compreensão que dela têm os monges dependerá, em grande parte, a fidelidade e autenticidade do caráter beneditino de suas vidas.

A variedade de interpretações, no decurso da História, nos revela, por outro lado quão difícil e delicado é essa compreensão, especialmente pelo fato do próprio autor da Regra justificar certas alterações que poderiam ser feitas, em virtude das variadas circunstâncias de lugar, de tempo e, de modo especial, das condições e características pessoais daqueles se propuseram abraçar e seguir a Regra.

A primeira dificuldade, talvez a mais fundamental, já se manifesta quando o leitor de épocas mais recentes, se depara com o título com o qual ela se apresenta: a “ Regra dos Monges” entendendo-se que ela quer ser uma norma de vida para todos os monges, indistintamente.

Poderá uma experiência espiritual, tão presente em tantas culturas humanas e tão característica do mistério de uma vida desenvolvida a partir do seu centro mais íntimo, ser dirigida por normas e por uma lei de tal modo abrangente?

 

As raízes da Regra.

 

Torna-se necessário, pois, esclarecer que a compreensão da Regra de São Bento só poderá ser verdadeira se for estudada, primeiramente, à luz das experiências monásticas de épocas  anteriores e igualmente, à luz dos documentos que, de certo modo, tornaram-se fontes da Regra Beneditina.

 

Nos últimos cinqüenta anos esse caminho das fontes literárias tem se apresentado bastante rico, na medida em que o conhecimento das muitas e diversas experiências de vida monástica, desde os seus primórdios, vem revelando a grande variedade de significados da própria palavra Regra. Já o fato dela não aparecer nos documentos mais primitivos, mas somente alguns séculos mais tarde, é bastante significativo.

Como mostra muito bem De Vogüé, em seu artigo clássico sobre o significado das Regras antigas[15], os primeiros autores latinos que se referem aos monges cenobitas caracterizam o seu modo de viver pela “obediência ao superior”. Assim, por exemplo, já no século IV diz Cassiano: “os cenobitas vivem em comunidade e são governados pela autoridade de um“ancião” ou “superior”. Também Jerônimo: “viver no mosteiro sob a disciplina de um só Pai e na comunhão com muitos”[16]. Um século mais tarde, Fulgêncio de Ruspe já menciona a regra dos cenobitas, mas a compreende simplesmente como a própria autoridade do abade. O mesmo fato aparecerá também, várias vezes, em Gregório Magno[17]. Concluindo diz De Vogüé: “Esse conjunto de textos concordantes demonstram de modo suficiente que a definição dos cenobitas, por Cassiano, no cap.4º da 18ª Conf. expressa o pensamento comum aos monges do século IV ao VI. Conseqüentemente, vemos o quanto a fórmula do Mestre e de Bento é original. Colocando  a Regra ao lado do abade, e até mesmo antes deste, nossos dois legisladores introduziram um elemento novo e de grande interesse[18].

Mas é oportuno e significativo notar ainda com De Vogüé, que Cassiano entende também por “regra”, não uma invenção de cada superior, mas a “disciplina” que os apóstolos haviam inculcado aos seus primeiros discípulos e sendo transmitida pela tradição dos antigos, era observada pelos cenobitas, ainda no seu tempo, através da autoridade do abade. A essa “regra” não escrita dava-se o nome de “regula communis”.

 

Quando a Regra do Mestre e a Regra de São Bento, pela primeira vez (século V), vão caracterizar os cenobitas como os que vivem em  comunidade e obedecem à Regra e ao Abade, compreendemos então que a Regra não se apresenta como algo inteiramente novo, mas como um documento utilizado pelo abade, mas como elemento integrado e recebido através da linha da Tradição dos antigos, vindo desde os tempos apostólicos.

 

Chega-se assim à constatação de que o monaquismo cristão é uma forma de vida que nasce da própria experiência da vida cristã, fundamentada nos textos das Sagradas Escrituras. São eles, tanto os do Antigo como do Novo Testamento, indispensáveis para a experiência monástica. E da mesma forma que as Escrituras Sagradas sempre foram ensinadas através de um processo de transmissão pessoal do texto, quer oralmente ou por escrito, assim também as receberam os primeiros monges. Por esta razão a Escritura e principalmente os Evangelhos foram sempre considerados como a Regra fundamental de qualquer vida monástica. Mas as Escrituras não supõem apenas um transmissor da Palavra, mas também um Mestre que primeiramente a viva, para depois poder transmiti-la e ensiná-la. Pode-se dizer, portanto que tanto o Cristianismo, como o monaquismo, de modo especial, conservaram sempre um processo de comunicação e ensinamento que é denominado de "iniciático".

Devemos nos referir, ainda que rapidamente, ao significado da palavra Regra, nos importantes documentos encontrados nas grutas, junto ao mosteiro de Qumrân, e hoje considerado, quase que por unanimidade, como tendo sido habitado pelos Essênios. De particular interesse para o monaquismo, em geral, é o documento encontrado na Gruta n.1, e um dos mais bem conservados, chamado "Regra da Comunidade" (anteriormente fora conhecido como "Manual de Disciplina"). Segundo os entendidos, esse manuscrito data do período de 100 AC a 75 DC. sendo formado por composições de épocas sucessivas. A Regra da Comunidade seria a parte mais antiga, apresentando as normas para a vida da comunidade dos essênios, como um “manifesto” que cristalizou por assim dizer o ideal do movimento prequmraniano e que levou à formação da comunidade em Qumrân.[19]

 

A partir desses testemunhos que manifestam a relação íntima entre a Regra e o ideal proposto pelas Sagradas Escrituras, pareceu-nos mais oportuno considerar agora não mais o significado da Regra em cada um dos diversos textos fontes da RB, mas examinar sim, e de modo cuidadoso e atento, todos os textos da Regra beneditina. Ou seja, pelo estudo do contexto em que se encontra, buscamos qual o sentido com que a própria Regra se apresenta ao leitor..

 

Muitos autores de comentários sobre a Regra já se ocuparam de estudar  os mesmo textos, mas sempre o fizeram dentro do estudo dos respectivos capítulos, sem a intenção de um estudo comparativo dos mesmos textos. .

Em síntese, o que se deseja fazer aqui é pesquisar a própria Regra e perguntar o que ela afirma de si mesma. Qual será o sentido da palavra Regra, nos muitos textos em que a própria Regra beneditina se refere a si própria? Procuramos estudar então, na verdade, a palavra "regra" em todos os capítulos da Regra beneditina, para verificar, na medida do possível, quais os traços comuns,  quais os mais característicos ou as nuances que  se tornam visíveis para o leitor atento.



[1] M.J.Marx, “Incessant Prayer in the Vita Antoniii” em Antonius Magnus eremita p.121-135; Orígenes, Homilia xxvii  sobre o livro dos Números (trad.) Em Cuadernos Monásticos 124 e 125 (1998); Vida de Moisés, São Gregório de Nisa, (trad) Ed.Ciudad Nueva, Madrid, 1993; Vie de saint Martin, Sulpice Sévère, SC 133.

[2] No Chile já é bem conhecido o Movimento Apostólico Manquehue, que reúne leigos solteiros e casados procurando viver em comunidade e trabalhando na educação como evangelização. Assim relata o seu fundador  José Manuel Eguiguren por que motivo adotaram a Regra de São Bento: "No nosso Movimento descobrimos que a Regra de São Bento é um caminho específico para viver o Batismo, que compartilhamos com todo o Povo de Deus. Estou convencido de que quase toda organização humana pode encontrar na Regra bons conselhos sobre como desenvolver as relações interpessoais em busca de determinado fim. Porém, se este fim não é tomar como guia o Evangelho (cf.RB Prol 21) não estamos mais falando de vida beneditina. Porque, de modo definitivo, ser beneditino não é mais nem menos do que ser cristão" (Cuadernos Monasticos, 138 (2001) p.311.

[3] At 2,44.45; 4,32

[4] M.Delcor /F.Garcia Martinez, Introduccion a la Literatura Esenia de Qumrân; Ed.Cristiandad, Madrid, 1982

[5] M.Delcor /F.Garcia Martinez, Introduccion a la Literatura Esenia de Qumrân; Ed.Cristiandad, Madrid, 1982

[6] Adalbert De Vogue, Sub Regula vel Abbate, ColCist 33(1971) 209-241.

[7] Epist. 125,15

[8] Dial. 2,1; Epist. 1,42 PL 77; Regra, no sentido de lei geral para todos os monges, quer eremitas como cenobitas Epist 5,1; a lei de um mosteiro IIDial 12; 4,57; ou uma regra escrita IIDial. 2,36.

[9] De Vogue, o c  e RM 1,2 e RB 1,2

[10] M.Delcor /F.Garcia Martinez, Introduccion a la Literatura Esenia de Qumrân; Ed.Cristiandad, Madrid, 1982

[11] J.Leclercq, o c. p. 34-38

[12]
Cf.Justin McCann, Saint Benedict, Sheed and Ward, London, 1979, p.11

 

[13]
Cf.Justin McCann, Saint Benedict, Sheed and Ward, London, 1979, p.11

 

[14] No Chile já é bem conhecido o Movimento Apostólico Manquehue, que reúne leigos solteiros e casados procurando viver em comunidade e trabalhando na educação como evangelização. Assim relata o seu fundador  José Manuel Eguiguren por que motivo adotaram a Regra de São Bento: "No nosso Movimento descobrimos que a Regra de São Bento é um caminho específico para viver o Batismo, que compartilhamos com todo o Povo de Deus. Estou convencido de que quase toda organização humana pode encontrar na Regra bons conselhos sobre como desenvolver as relações interpessoais em busca de determinado fim. Porém, se este fim não é tomar como guia o Evangelho (cf.RB Prol 21) não estamos mais falando de vida beneditina. Porque, de modo definitivo, ser beneditino não é mais nem menos do que ser cristão" (Cuadernos Monasticos, 138 (2001) p.311.

[15] Adalbert De Vogue, Sub Regula vel Abbate, ColCist 33(1971) 209-241.

[16] Epist. 125,15

[17] Dial. 2,1; Epist. 1,42 PL 77; Regra, no sentido de lei geral para todos os monges, quer eremitas como cenobitas Epist 5,1; a lei de um mosteiro IIDial 12; 4,57; ou uma regra escrita IIDial. 2,36.

[18] De Vogue, o c  e RM 1,2 e RB 1,2

[19] M.Delcor /F.Garcia Martinez, Introduccion a la Literatura Esenia de Qumrân; Ed.Cristiandad, Madrid, 1982

 
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